Músicas de Cabo Verde. O Funaná

por António Kenda Borges dos Santos, LLCE1 português

O Funaná é um género musical originário de Cabo Verde, principalmente da ilha de Santiago, pois foi aí que foi criado. Parece ser um estilo de música recente porque só começou a ser ouvido e tocado nos finais do século XIX e inícios do século XX, segundo a tradição oral.

Esta musica surgiu quando, numa tentativa de aculturação, o acordeão teria sido introduzido na ilha de Santiago, para que a população aprendesse géneros musicais portugueses. O resultado, no entanto, foi completamente diferente do esperado: ou seja, a criação de um género novo e genuíno, o Funaná. Não existem no entanto, documentos musicólogos a corroborar esta possibilidade. Mesmo sendo um género musical totalmente diferente, o acordeão e os ferrinhos são tão utilizados no Funaná quanto em certos géneros musicais portugueses (malhão, corridinho, vira, etc.). O que mostra que ironicamente de certa forma os portugueses conseguiram introduzir uma influência musical no país.

O Funaná no princípio era mais tocado pelas camadas mais desfavorecidas da população, até chegou a ser proibido tocar e cantar Funaná na capital, porque era um estilo mais cantado pelo povo, nomeadamente as camadas mais pobres, e porque cantavam principalmente em crioulo, o que os colonizadores portugueses não aceitavam. Mas também porque era sobretudo a Morna que gozava de um certo prestígio e de um caráter nobre.

Depois da independência, as pessoas tentaram introduzir o Funaná, como género de música tocado e ouvido por todos, e não só pelas classes inferiores. Mas era ao mesmo tempo uma luta contra a desigualdade social. Essa tentativa foi um fracasso, e assim foi necessário esperar a década de 1980 para que o conjunto “Bulimundo” viesse fazer ressurgir o Funaná. Os Bulimundo cantaram músicas como “febri di funaná” e “Mundo”, músicas que descreviam o dia a dia das pessoas de Cabo Verde. Graças ao sucesso dos Bulimundo o Funaná foi exportado para todas as ilhas de Cabo Verde, porque, como já o dissemos, no início o Funaná estava mais centralizado na ilha de Santiago, e era pouco tocado ou ouvido nas outras ilhas de Cabo Verde. Podemos dizer que os Bulimundo conseguiram “nacionalizar” o Funaná.

Hoje o Funaná é composto, interpretado e apreciado por todos e não só pelas pessoas mais pobres ou mais desfavorecidas, mas também as pessoas mais afortunadas. O Funaná tornou-se finalmente conhecido por todos, e assim começou a ser internacionalizado a partir dos anos 1990. Principalmente graças à contribuição do grupo “Finaçon” (nascido de uma separação dos Bulimundo).

Agora o Funaná é tocado no mundo inteiro, não só por artistas Cabo-Verdianos, mas também estrangeiros. Países como a França e Portugal contribuíram muito para esta internacionalização. Principalmente o  público francês que gosta muito deste estilo. Graças a um interesse crescente pela cultura Cabo-Verdiana despertado nomeadamente pela descoberta da Morna através de Cesária Évora e do sucesso que esta teve na Europa.

Gostei muito da música “Tunuka” de Mayra Andrade porque aprecio a música em geral, e achei que é uma música muito animada, e que até podia mudar um mau dia de alguém para um dia melhor, é uma música que faz uma pessoa sorrir.

Por isso, decidi partilhá-la com vocês, espero que gostem.

Tunuka, Mayra Andrade

Tunuka, Tunuka bála

Ki tem koráji, é só Tunuka di meu

Sukuru ka da-l kudádu,

Ka duê-l xintidu, ki fari duê-l korasom.

Tunuka é nós ki bai,

É nos ki bem, é nos ki fika li-mé.

Nu uni korasom,

Nasionalidádi dja-nu tem dja,

Nu mára nós kondom, nós limária nu dexâ-l la.

É nós ki mbárka pa Sam Tomé

Injuriádu marádu pé

Mi ku bo ki stába la mé

Tudu m-dádu m-da-u també

Na nós pom di kada diâ, oxi dretu manham mariádu

Ramediádu ka tem midjor

Ki spéra m-dádu m-da-u també.

Tunuka kre-u ka pekádu

Da-u ka ta fládu, má só bu da-m ki tenê-m.

Tunuka, Tunuka, Tunuka

Tunuka,Tunuka, é ti si ki-m tem pa-m fla-bu.

(solo)- Tunuka,t,t,t,t, é ti si ki-m tem pa-m fla-bu…

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Os jogos da lusofonia

por Da Águeda Laura,  1º ano LLCE Portugais 

Os jogos da lusofonia são um evento multidesportivo entre países de língua portuguesa. Este evento é uma espécie de jogos olímpicos disputados entre os diversos países lusófonos. A associação que representa os jogos é a ACOLOP ( a Associação dos Comités Olímpicos de Língua Oficial Portuguesa). Foi fundada a 8 de junho de 2004, em Lisboa. O principal objetivo é de reforçar a união e cooperação dos seus associados, através do desporto. Aliás, a ideia de integrar o mundo lusófono pelo desporto é outro dos objetivos principais e estes jogos são oficialmente reconhecidos pelo Comité Olímpico Internacional.

Estes jogos contam já três edições: em Macau em 2006, em Lisboa em 2009 e em Goa em 2014. Os próximos jogos serão em Maputo em 2017 e em Luanda em 2021. Os diferentes jogos disputados são o atletismo, o basquetebol, o futebol, o judo, o taekwondo, o tênis de mesa, o voleibol e o voleibol de praia. Na classificação de medalhas, o Brasil está em primeiro lugar, Portugal e a Índia estão respetivamente em segundo e terceiro lugar nesta classificação. O hino que representa os jogos da lusofonia foi escrito por Luís Pedro Fonseca. Tal como nos Jogos Olímpicos, é cantando antes de cada jogo e durante a cerimónia de abertura.

Cada desporto dos jogos merece uma atenção particular por parte da organização e só são selecionados desportos com muita tradição nos países lusófonos ou pelo menos em alguns deles. O taekwondo, por exemplo, é uma arte marcial criada na Coreia. Combina combate e técnicas de auto-defensa com o desporto e exercício físico. Em 1989, era a arte marcial mais popular do mundo. Faz parte dos jogos da lusofonia desde a sua primeira edição em 2006, em Macau. A categoria masculina foi introduzida em 2006, e a categoria feminina em 2009. As categorias masculinas e femininas têm o mesmo número de medalhas. O futebol faz também parte dos jogos da lusofonia. É um desporto popular em todos os países lusófonos. Em 2006, Portugal conquistou a medalha de ouro. Cabo Verde ganhou o primeiro lugar na edição seguinte.

Para concluir, podemos dizer que os jogos da lusofonia permitem a unificação dos países lusófonos através do desporto e do convívio amical entre os atletas. Além disso, é uma forma de dar a conhecer alguns dos desportos praticados em alguns dos países ou regiões de língua portuguesa e que são menos conhecidos nos restantes países como é o caso do tênis de mesa, muito praticado em Macau e na Ásia e menos praticado nos restantes países de língua portuguesa.

Apesar do objetivo de união e de convívio, a ACOLOP procura também o reconhecimento internacional para os Jogos da Lusofonia.

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Os Himbas

por Erico Nicola Espada Silva, LLCE1 português

Hoje em dia a população tem tendência a uniformizar-se, deixando de lado as tradições, é por isso que vou apresentar uma das tribos africanas mais conhecidas e mais antigas que luta diariamente pela sua existência, essa tribo chama-se “Himbas”.

Quem são os Himbas ?

Os Himbas são um povo semi-nómada africano e um grupo que provem do povo Hereró, este povo é mais conhecido sobre o apelido de “o povo vermelho”. Esta tribo é muito antiga, foi descoberta no século XV, mas sem dúvida que já existia antes, só que o território Africano ainda era um território inexplorado pelos europeus, e então a maioria dos povos africanos eram desconhecidos na Europa.

Noiva Himba

Inicialmente esta tribo habitava num só território porque os países Africanos ainda não estavam definidos, tal como os conhecemos atualmente. Hoje em dia, podemos dizer que os Himbas vivem algures entre a atual Namíbia e o atual território de Angola. Este povo foi dividido em dois após a criação destes dois países, o que criou uma separação da tribo.

 Os Himbas são uma etnia Bantu que vivem principalmente no Kaokoland (atual região de Cunene), um território imenso, desértico e um pouco montanhoso. Estima-se que vivem 10 000 habitantes no Kaokoland o que faz 1 Himba por km quadrado, e em Angola existem 3 000 habitantes, que se situam ao longo do rio que separa os dois países.

Esta etnia apresenta alguns traços distintivos das demais tribos africanas que cativaram o nosso interesse, por exemplo, eles são uma sociedade matriarcal.

Mas o que é uma sociedade matriarcal?

Podemos afirmar que é uma coletividade na qual a mulher tem um poder muito importante. É uma organização onde o sexo feminino pode exercer um poder político ou económico. Nesta tribo as mulheres também transmitem o direito de propriedade e de herança, isto significa que é a elas que pertence o gado e as casas onde elas vivem.

Os Himbas estimam, por exemplo, que os pais transmitem uma propriedade espiritual e a mãe a propriedade de sangue, mais basicamente os pais transmitem toda a cultura, o saber, etc. e as mães tudo o que é do domínio material: casa, gado…

Assim são constituídos dois clãs: os herdeiros da mãe que são chamados os Eanda e os herdeiros dos pais que são os Oruzos.

 Todos os grupos culturais possuem as suas tradições, hábitos, lendas e costumes. A mais visível na tribo dos Himbas é sem dúvida a tradição indumentária. Eles não são chamados o Povo Vermelho sem nenhuma razão. Os Himbas têm a tradição de pintarem a pele de vermelho. Mas porquê ?

É sobretudo uma questão de prática, porque esta pigmentação da pele permite protegê-los do calor, dos raios de sol, da secura do ar e sobretudo dos insetos. Esta pigmentação é feita à base de gordura animal, de cinzas e de argila.

Os acessórios e os penteados também são elementos aos quais os Himbas dão um grande significado. O penteado da mulher por exemplo pode significar o estado civil da mulher : depois do casamento elas colocam um pequeno chapéu em pele de cabra que se chama o “errembe”, e assim os outros solteiros da tribo já sabem que esta mulher é casada.

Quando são pequenos, homens e mulheres, têm tranças mas as do homem são para a frente e as das mulheres para trás, depois do casamento a trança do homem é posicionada para trás.

 As mulheres colocam  pulseiras em couro e colares. O significado destes é mais pessoal e difícil de compreender… Mas, por exemplo: un colar com uma concha branca é sinal de fertilidade, este colar chama-se o “ohumba”.

 Ao nível culinário eles alimentam-se à base de carne, leite, cereais e frutos. Habitualmente as mulheres preparam a comida, mas, são os homens que se ocupam de caçar e tratar do gado.

O gado é uma riqueza para este povo, é o sinal da riqueza de cada família, quanto mais gado possuírem mais influência têm na tribo, dado que o gado também é muito utilizado no sistema de troca e venda. E o roubo pode ser condenado pela morte.

Este gado também é usado para pagar o que podemos chamar de crimes, multas e violações…

-Por exemplo:

-se alguém ferir outro, deve pagar 8 bois.

-se as feridas matarem, 35 bois para um homem, e, 45 bois se for uma mulher.

-se um homem dorme com a mulher de um outro 6 bois, 3 bois são para o homem e 3 bois são para a mulher.

E como toda a gente, os Himbas têm a suas ocupações, para se divertirem eles inventaram alguns jogos como matangululu, que é o mais conhecido e que consiste em um duelo de cariz físico entre duas pessoas. Outros jogos existem semelhantes ao matangululu, que consistem em duelos um pouco como a esgrima. Os protagonistas destes jogos são sobretudo os jovens que querem mostrar a sua agilidade e a sua força.

Em termos religiosos, os Himbas têm algumas tradições bastante singulares.

Para muitos a religião é venerar um deus. Os Himbas são diferentes, eles veneram sobretudo os seus antepassados, os que já morreram. Eles consideram que os seus antepassados ainda estão vivos mas de uma outra maneira, como espíritos.

De uma certa forma, podemos dizer que estão ligados a um certo do idealismo filosófico, como o defendido por Bergson na tradição ocidental. Este filósofo, representava a morte através da metáfora do prego e do lenço, o corpo é um prego que prende o lenço ( o espírito) na parede (as situações da vida) e quando este prego cai o lenço liberta-se do que o aprisionava, sendo assim livre.

Como todas as tribos africanas desta região, o povo Himba tem um feiticeiro, uma espécie de guru , um sábio que pode entrar em comunicação com os antigos espíritos, e, por vezes, consegue ver o futuro. Estas pessoas chamam-se otchimbandas, eles podem curar um espírito doente, através da magia branca ou de ervas medicinais.

Para concluir sobre os Himbas, eles pensam que existem espíritos e não um deus. Que cada espírito é livre e que nunca se deve faltar o respeito a um espírito antigo senão serão castigados.

Os tempos passam… e a África evoluiu em termos geopolíticos e nomeadamente em termos de fronteiras. Esta mudança provocou uma enorme dificuldade a estas tribos, que tiveram de se separar fazendo nascer outras.

Para compreender a disposição destas “novas” tribos temos que estudar a situação geográfica destes povos.

Para começar Angola é constituída de 18 províncias: Bengo, Benguela, Bié, Cabinda , Kwando-Kubango, Cunene, Kwanza-Nord, Kwanza-Sud, Huambo, Huíla, Luanda, Lunda-Norte, Lunda-Sul, Malanje, Moxico, Namibe, Uíge, Zaire.

O número de províncias mostra bem que Angola é um país constituído por várias culturas. Por exemplo, em Angola falam-se seis línguas bantus que têm um estatuto de língua nacional que são o Umbundo (35,7 %), Kimbundu (26,7 %), quicongo (9,8 %), chokwe (4,5 %), nganguela (6 % ) e finalmente kwanyama. A multitude de línguas faladas é uma prova da multitude de culturas que coabitam no mesmo território.

Tal como Angola, a Namíbia está divida em 13 regiões, cada uma com uma capital diferente.

A língua oficial é o inglês mas só 7% da população o fala realmente.

Mulher Mudimba

Entre as tribos mais populares derivadas dos Himbas, existem os Mudimba, muito parecidos com os Himbas, mas este povo não vive de maneira tão isolada, eles têm contactos com o mundo exterior.

O que os caracteriza é sobretudo os cabelos coloridos, os penteados, e sobretudo uma maneira de se vestir bem típica do país, com roupas bem coloridas, com tons que representam este mesmo país que é Angola.

Depois existe a tribu Mucubal (Mucubai, Mucabale o Mugubale) o que caracteriza esta tribo é sobretudo as tradições de vestuário das mulheres que têm um chapéu na cabeça que se chama Ompota, com padrões por vezes atípicos e bem coloridos mais uma vez, também têm uma corda que lhes aperta o peito que se chama oyonduthi, a origem desta tradição é desconhecida mas crê-se que deva haver alguma questão prática ligada ao uso dessa corda.

Mulher Mucubal

 Os Mocubals são um povo semi-nómada.

A lenda diz que este povo é conhecido pela sua resistência, por vezes podem andar e correr 80km por dia.

Esta tribo é herdeira dos Hererós mencionados antes. Este povo tem mais de 300 anos e vive ou nas montanhas do Chela ao norte da Namíbia ou ao pé do rio Cunene.

 Mais parecido com algumas pequenas comunidades ou vilas africanas de algumas dezenas de habitantes que vemos na televisão, existem os Mucawana (Muhacaona) que vivem em cabanas de madeira. Estas pequenas aldeias aonde vivem os Mucawana encontram-se no sul de Angola.

Esta tribo é bem mais moderna e tem um contacto com o mundo exterior, não vivem isolados. Podemos, por exemplo, encontrar reportagens não muito antigas na internet, porque durante a guerra civil de Angola os estrangeiros não podiam de entrar no país e foi só a partir dos anos 2000 que os repórteres começaram a interessar-se por estas tribos e puderam realmente ir ao seu encontro.

Por fim, a tribo Mwila (Mumuhuila o Muhuila), é um bocado diferente das outras, sobretudo para as mulheres.

Quando a mulher nasce coloca-se-lhe um colar à volta do pescoço (como as mulheres girafas da Tailândia) e esse colar vai acompanhá-las toda a vida. Cada etapa superada adicionam um colar e assim a coluna vertebral é puxada e o pescoço cresce, o problema é que esses colares não podem ser retirados senão o pescoço parte e a pessoa morre.

Mulheres Mwila de Angola, foto de Eric Lafforgue

A pesquisa sobre estes povos permitiu-nos compreender uma certa evolução geográfica que foi provocada pela criação de alguns países africanos como Angola ou a Namíbia. A criação de fronteiras, como referimos anteriormente, e os condicionalismos históricos associados ao colonialismo e mais tarde à independência destes países permitiram-nos entender melhor a existência e separação destas tribos que, mesmo se são parecidas acabam por ter sempre alguma coisa que as diferencia.

No entanto, pudemos também compreender como é cada vez mais difícil manter estas tradições, que seja por causa da “invasão” da civilização moderna, nomeadamente das civilizações ocidentais, ou mais naturalmente por causa das frequentes secas que existem nestes países, assim como a distribuição dos territórios, porque como mencionado anteriormente, a maior riqueza destes povos é o gado ou territórios para as pastagens e isso pode comprometer a existência futura de certas tribos. Infelizmente, em muitos casos, assistimos ao longe a uma espécie de “crónica de uma morte anunciada”*.

* título de um romance publicado em 1981, de Gabriel García Marquéz.

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Entre pais e filhos

por Raymonde Pierre, LLCE3 português

 Experiência

Depois de ter acabado a faxina de casa num sábado, liguei a televisão para assistir um programa.  Acho que às vezes é bom assistirmos documentários sobre a sociedade para percebermos o quanto as relações humanas  e principalmente as relações entre pais e filhos mudaram e assim termos  em vista a evolução da sociedade e podermos fazer uma reflexão sobre a situação.

Então liguei a televisão na NRJ12 e estava começando um programa cujo o título era  S.O.S. ma famille a besoin d’aide. Este programa foi feito para ajudar as famílias que estão em dificuldade com os seus filhos já adolescentes ou até maiores de idade, é do mesmo tipo da Super Nanny  que é feito mais para ajudar as famílias que estão em dificuldades com as crianças.  Tínhamos no programa em questão uma mãe desesperada e triste de ver seu filho tornando-se ao longo do tempo  um menino muito rebelde, que rouba, que é agressivo e violento e que tem muitas más amizades. Essa mãe dava tudo que seu filho queria, do bom e do melhor, muito amor e carinho mas ele não queria saber dessa afeição vindo da parte dela.

O que mais me chocou foi a parte em que o educador chegou e ela começou chorar por causa dessa situação trágica e seu filho começou dizer “hey  pare com o seu choro!!”  com um tom autoritário. Eu acho que quando vemos uma tal cena não dá para não ficar com o coração triste e ao mesmo tempo revoltado contra esse filho.

Esta cena na televisão fez-me pensar: E eu? Será que quando eu era adolescente, eu respondia desse jeito a meus pais? A resposta é: Nunca! Porque eu sabia o que me esperava.

Minha experiência como filha

Desde criança, meus pais sempre foram  severos comigo e eu tinha muito medo e ao mesmo tempo muito respeito por eles. Quando eu fazia uma besteira, ficava apavorada de medo porque eu sabia que eles iam me ralhar, então sempre tentei ser uma menina obediente e gentil. Essa severidade, esses limites, essas correções impostas pelos meus pais nunca fizeram de mim uma pessoa revoltada, violenta e agressiva.  Pelo contrário hoje sou o que sou por causa deles, conheço o valor do respeito e do carinho. Acho que é muito importante impor limites às crianças. Isso contribui para eles terem consciência  de que não são o centro do mundo e que, portanto, não podem fazer o que querem. É muito importante essa imposição dos limites às crianças para quando elas crescerem se integrarem facilmente na sociedade, porque a sociedade é como uma família, regida por leis.

 Minha opinião sobre a relação entre os pais e os filhos

Hoje em dia, comparando a um tempo passado, algumas décadas, podemos dizer que os pais estão de uma certa forma mais próximos dos seus filhos. Os pais são mais comunicativos,  com espírito aberto que permite abordarem qualquer assunto como por exemplo a sexualidade de forma mais natural e assim tornarem-se mais amigos dos seus filhos. Mas será que podemos falar de um certo relaxamento na área da educação? Se por um lado mimar exageradamente uma criança pode ser negativo, nomeadamente quando esse excesso revela carências e problemas familiares que podem ser fatores negativos para o bem-estar da criança e que pode levá-la a tornar-se uma pessoa violenta, de mau caráter, por outro lado, creio que uma maior abertura ao diálogo por parte dos pais só pode facilitar as coisas.

Os pais estando mais sujeitos a ter uma relação baseada na confiança e no respeito das opiniões dos  filhos e vice versa  só pode ser uma coisa boa e é, talvez, a via mais saudável para a relação familiar e o instrumento de realização pessoal que faltava à família que pude observar no programa televisivo.

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Street arte in situ.

por Estelle NEROT, LLCE3 português

Na atualidade do Art Magazine do mês de outubro de 2014 pude ler  “O Street Art na conquista de Djerba”. Este título chamou-me a atenção porque tenho a sensação que faz alguns meses que vejo “Street Art” mencionado em todo lado: num cartaz publicitário, na internet, nos  programas culturais da cidade, etc…

Mas o que é o Street Art? é o termo genérico para qualificar muitas coisas mas é mais especificamente, a arte de rua. Falei Arte? Sim. Pois, se durante muito tempo o Street Art foi assimilado aos graffitis ou tags, aquelas inscrições como ato de vandalismo, o estatuto hoje em dia evoluiu. Agora os tags e graffitis são uma verdadeira produção artística e o grafiteiro virou um artista com às vezes uma grande notoriedade, por exemplo, como Seth em Paris ou Okuda San Miguel em Portugal,  na Espanha e em França.

Da Villa ocupada em Nantes ao prédio da Axa no Porto, constatei que a arte urbana não se contenta mais com as ruas como portefólio mas também invade as galerias das cidades. Um vasto espaço lhe foi dedicado como em Nantes no antigo prédio da Mutualidade. Os artistas foram convidados a tomar posse desse edifício durante dois meses. No Porto o edifício Axa ofereceu o mesmo conceito.

Estas duas exposições tiveram um enorme sucesso, eu mesma tive a oportunidade de vê-la e confesso que fiquei encantada. Através destes projetos, descobri novamente uma arte urbana que não segue as regras de uma academia específica. Pode-se exprimir por diversas técnicas ou materiais

À medida que avançamos nas diferentes salas das exposições somos projetados num mundo à parte e acessível, onde poesia, criatividade e contestação dialogam de forma ativa.

Estas exposições permitem fazer desfrutar este gênero que durante muito anos teve uma má reputação. Constatamos uma evolução da percepção desta arte. A situação inverteu-se: a arte “bastarda” das ruas de má fama passou a ser exposta nas avenidas chiques e  nas galerias em voga.

Porém, mesmo achando estas manifestações muito interessantes, penso que a arte urbana tem mais impacto no seu contexto de origem, ou seja, na rua. Claro, uma obra não terá o mesmo impacto no interior e no exterior pois como diz Christophe Genin no seu ensaio Street Art au tournant: Reconnaissance d’un genre: “a mudança do suporte não é neutra. Este, não é apenas um simples deslocamento, mas sim uma mudança de contexto que transtorna a concepção e a execução”. De fato o artista escolheu tal muro, tal parede ou edifício por uma razão determinada.

Enfim, creio também que o desenho de rua é bem realizado e eficaz quando este possui uma espontaneidade. Quer dizer que você descobre de repente a pintura de forma aleatória, quando está andando na rua. A mensagem deixada pelo artista fica mais impregnada na nossa mente.

Ao escrever esta crónica não pude parar de pensar na arte do grafiteiro português Costah, cujo estilo poético também faz lembrar Seth mencionado acima. Talvez vocês já tenham visto um de seus trabalhos nas ruas do Porto.

Suas personagens, com o olhar tão particular ou os seus corações de Viana revisitados não nos deixam indiferentes. Seus trabalhos artísticos se integram de maneira inteligente no espaço urbano, jogando com os elementos já existentes da parede ou do edifício. Costah é um destes grafiteiros, como  muitos outros, que fazem com que paremos, um instante, na rua. E a emoção que sentimos é única, pode nos fazer sorrir antes de ir para o trabalho ou também refletir durante o dia inteiro. E isto é único.

Deixo aqui um pouco desta arte urbana que descobri durante estes últimos meses com estes sites:

 http://www.villaocupada.com/visite-virtuelle/

http://www.costah.net/street-art.html

http://streetartaxaporto.wix.com/streetart#!gallery/c24vq

Um dos numerosos corações de Costah no Porto

Trabalho de Pelucas em Nantes na Villa Ocupada

Costah no edifico Axa Porto

Mioshe na Villa Ocupada

Mioshe na Villa Ocupada

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«O Herói» de Zézé Gamboa, espelho político-social de uma Angola pós-guerra

por Rudi Rebelo, LLCE1 português

O cinema sempre foi um meio usado pelos artistas para denunciar os erros da sociedade em que vivem. Como exemplo, podemos citar o cinema soviético dos anos 20, no qual era colocada em cena a questão de dar o poder ao povo e não ao governo. Assim, o que permitiu o impulso do comunismo foi em grande parte o cinema do tempo, como «O Encouraçado Potemkim» de Sergueï Einsenstein, no qual a população é uma personagem por inteiro e que se revolta contra um poder autoritário e não democrático.

Nessa mesma perspetiva, vamos ver numa primeira parte que «O Herói» é uma transposição da sociedade Angolana pós-guerra, e em seguida que este filme também é uma denúncia do poder político em Angola.

Para começar, seria interessante lembrar a sinopse do filme. A história é simples, o Sargento Vitório, depois de ter pisado uma mina vê-se amputado de uma perna. Ele terá de recomeçar a sua vida de civil, aleijado e marcado por uma guerra devastadora. Também seguimos em paralelo a vida de um órfão em busca de seu pai, que partiu para a guerra sendo ele muito jovem.

Assim esta sinopse nos revela duas coisas. A primeira sendo que estas duas personagens não são nada mais nada menos que alegorias. Vitório, amputado, aleijado, é a Angola que viveu a Guerra Civil a partir de 1975 lançada pela independência do país. Marcada para a vida pelo conflito, esta Angola tenta se reconstruir, mas também tem de viver com as suas cicatrizes e fantasmas.

De facto, esta Angola está assombrada pelas memórias da guerra passada. Tal como Vitório ao longo do filme. Aqui estão algumas das palavras de Zézé Gamboa que explicam esta análise:

«Estes 45 anos de guerra foram muito pesados, deixaram cicatrizes que vão demorar muito a sarar. A minha responsabilidade de cidadão e cineasta é a de chamar a atenção da sociedade civil e das autoridades para lhes dizer que isto não pode voltar a acontecer. Acho que para exorcizar a lembrança da guerra O Herói é um filme importante para todos os angolanos. Sendo uma ficção, mostra o estado problemático do país neste momento

A outra Angola aqui representada de forma alegórica é a geração que nasceu logo depois desta guerra. Se sentindo órfã, perdida, sem verdadeira identidade ou porque simplesmente o país se sente abandonado.  Esta Angola procura as suas origens, tal como a figura do menino órfão que procura o pai.  Indo mais longe, e tendo em conta o facto que o órfão vive com a sua avó podemos notar aqui a correlação da Angola «antiga» e da Angola «jovem» tendo as suas próprias dificuldades, mas vivendo juntas, e tentando se ajudar mutualmente.

Por outro lado, este filme é a denúncia do poder político de Angola. De facto, através da personagem do político, Zézé Gamboa faz uma crítica dura aos dirigentes angolanos. Este político acumula muitos defeitos. Ele é egoísta, não pensa no povo que tem a seu cargo mas pensa sim em seu próprio interesse. Assim, o povo Angolano é abandonado pelo homem, e aqui se encontra o ponto de vista do cineasta. Porque além de estar perdido quanto à questão das suas origens, o povo Angolano procura também um poder político estável.

Pois como se pode ver no filme, a identidade política do povo é inexistente. E um povo sem identidade política –  polis sendo a cidade em grego antigo – é um povo sem unidade, sem a sua cidade, a sua sociedade. E aqui está um problema muito grave. E Zézé Gamboa tem plena consciência disso. Aliás, o órfão também pode simbolizar este povo procurando esta mesma identidade política.

A negligência política é mostrada através de duas outras personagens: o médico e a professora. Porque ainda que estas personagens (trabalhadoras do estado) façam tudo o que podem para ajudar o povo, a verdade é que eles são impotentes. O médico numa primeira fase será aquele que põe a prótese a Vitório, e a cena onde isso acontece mostra ao espectador que a operação é sinónima de grande espanto em Angola. Uma prótese é algo de fantástico num país onde a medicina é tão pouco avançada. Porém, muitas pessoas estão nesse mesmo hospital e nem todas podem ser tratadas.

A professora quanto a ela tenta ensinar o que pode às crianças da escola dela, mas este ensino apenas se resume a essa mesma escola e nunca será capaz de ensinar Angola inteira. Gamboa tenta assim dizer ao poder Angolano que tem de ajudar profissões como estas, essenciais para o bom desenvolvimento do país.

Em conclusão, podemos dizer que, de facto, este filme se ilustra perfeitamente numa tradição denunciadora do cinema. «O Herói» é um filme que retrata com um realismo surpreendente a psique de um país e como este teve de suportar uma Guerra Civil de quase 30 anos. O título do filme é muito irónico, Vitório está muito longe de ser um herói e no filme viverá mais como um sem abrigo, representante da decadência do país.A visão de Gamboa sobre este «herói» revela plenamente a mentalidade desiludida do país.

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Será a praxe realmente necessária?

 Laury Pereira, LLCE3 português

Portugal conhece um desenvolvimento da prática das praxes muito forte nas suas Universidades, ao contrário de muitos outros países europeus. Isso gerou, então, muitas polémicas e tornou as praxes num assunto social bastante controverso, criando um debate sem fim. No ano passado, estive a estudar na Universidade do Porto e, ao passear na rua, assisti a algumas das cenas inerentes às praxes. Foi algo que me deixou pensativa e perplexa em relação à legitimidade e ao interesse dessas práticas recorrentes.

O fenómeno das praxes em Portugal será uma tradição ou uma integração maldosa?

Se você responder que é tradição, vou-lhe dizer que de qualquer maneira, uma tradição não justifica por si só a existência duma prática se for contra a ética. Pois, parece-me algo estranho e até absurdo como é que é delegado em jovens de vinte e poucos anos, que pouco da vida sabem, acabadinhos de sair da casa dos pais, sem quaisquer conhecimentos em psicologia, em relacionamentos entre as pessoas, sem experiência nenhuma em cargos de liderança e gestão de pessoas – basicamente sem saberem nada sobre nada – a árdua tarefa de fazer com que um grupo de outros jovens de vinte e poucos anos se sintam integrados, motivados, e com espírito de equipa e união.

Também fico perplexa com o dito resultado e “interesse” dessas praxes. Ora, pessoalmente, encontrei alguns problemas no eterno discurso dos “pró-praxes”. Como é que a invenção de uma hierarquia baseada na submissão dos mais jovens aos mais velhos (o conhecido sistema “caloiro”/“padrinho”) pode criar um espírito de equipa? Uma equipa não tem nada a ver com uma hierarquia baseada nas relações de força entre as pessoas nem na expressão de um desequilíbrio de poder entre elas. Não é só na minha opinião, pois, no dicionário também podem encontrar o sentido dado a essa palavra: “Uma equipa é um conjunto de pessoas que desempenham funções recíprocas no seio dum meio social”. Re-cí-pro-cas. Aqui está a falha do tão querido e ilusório sistema de praxes.

É do conhecimento geral que os rituais da praxe giram à volta da humilhação, da vergonha, do uso de força e de pressões psicológicas por vezes agressivas. E mesmo assim, muitos estudantes do primeiro ano aceitam este modelo de liderança. Sabem porquê? Porque eles abraçam a ilusão duma ascensão social em contrapartida de humilhações consentidas.

E agora, ainda vão poder afirmar que a praxe é sinónimo de integração e união? Força!

Não vale a pena dizer que de qualquer maneira a praxe não é obrigatória porque todos nós sabemos que se um estudante se recusar a essas práticas, não será integrado como os outros. Afinal, a política da praxe é “você pode se recusar a ser praxado mas depois, será renegado por todos nós”. Bastante agradável, não é?

Enfim, que tipo de regime autoritário é esse?

Parece-me um abuso de poder ver grupos de alunos mais velhos descarregarem as suas óbvias limitações e frustrações. Mas em vez do cenário negro e cinzento que é típico da praxe, com os caloiros de quatro, insultados, e a olhar para o chão (vi isso com os meus próprios olhos), porque não usar festas para promover a integração? E porque não usar eventos desportivos ou lúdicos para fomentar o espírito de equipa?

Já agora, no que toca à ética profunda da praxe: Têm noção de que praxe é sofrer para poder ser o próximo a fazer sofrer? Pois, os estudantes do primeiro ano aceitam ser sujeitos à praxe porque sabem que no ano a seguir também poderão fazer o mesmo aos novos estudantes do primeiro ano. Mas isso não é nem mais nem menos que uma outra coisa que vai contra a ética e que se banaliza com a única e absoluta desculpa da tradição. Não vale a pena esconder-se atrás dela, repito, não é justificação nenhuma se for contra a ética (sim, lembram-se da liberdade de expressão e do direito ao respeito?).

Já agora, queria deixar um lembrete para os estudantes do primeiro ano que duvidam do meu bom senso: Eu sei que a praxe, para muitos de vocês, marca um momento que julgam como grande mudança na vossa vida. Mas o que muda a vossa vida não é a praxe, o que muda a vossa vida é a Universidade! O ensino superior oferece a cada um de vocês um cargo com mais responsabilidades e assim favorece o vosso desenvolvimento pessoal, social e profissional. A praxe não é nada de indispensável, vocês irão viver melhor sem ela, acreditem. E para acabar essa crónica, vou apoiar esse meu ponto de vista citando Jiddu Krishnamurti, um grande sábio indiano: “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente”. Meditem.

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