Paulo Lins, um autor que dá voz à população negra

 

Escritor Paulo Lins e Raymonde Pierre, estudante de 3° ano LLCE

Escritor Paulo Lins e Raymonde Pierre, estudante de 3° ano LLCE

Esse ano a Feira do livro de Paris, realizada entre os dias 20 e 23 de março, recebeu como convidado de honra o Brasil, com o interesse de divulgar a riqueza da literatura  e a diversidade cultural  brasileira ao público francês. Nessa ocasião foi convidada uma delagação de 48 autores como Ronaldo Correia de Brito, Milton Hatoum, Domício Proença Filho. Houve também diversas mesas de debates com diferentes temas como “Qual Brasil para qual romance?”, que reuniu três autores de meios sociais desfavorecidos – Luiz Ruffato, Marcelino Freire e sobretudo Paulo Lins. Paulo Lins é um romancista excepcional que procura dar uma nova cor à literatura brasileira, trata de assuntos ligados à favela e à condição negra, tanto no Brasil de hoje (Cidade de Deus, 1997) como no mundo do anos 30, em que se desenvolveu o samba carioca (Desde que o samba é samba, 2012). A inserção da população negra não foi bem feita depois da escravidão e ainda hoje existem muitas desigualdades e preconceitos. O autor leva o leitor a refletir sobre os problemas enfrentados no cotidiano por essa população e em mesmo tempo procura valorizar a posição do negro que demorou a inserir-se na sociedade, mas que sempre lutou para se posicionar através da cultura e repelir o processo de aculturação.

Aproveitámos o “Salon du Livre” de Paris para encontrar esse representante da “literatura marginal”, e para lhe fazer algumas perguntas sobre a população negra no Brasil e sobre o romance Cidade de Deus, cuja história ficou muito famosa depois de uma adaptação cinematográfica (2001), por Fernando Meirelles.

 

  • A violência e o tráfico de droga são temáticas que aparecem de maneira permanente no romance Cidade de Deus. Então  como  é que vôce vê o Brasil em relação à violência, e como seu projeto literário permite refletir sobre esta questão?

 

P.L: “ Eu vejo a violência como uma coisa global, e por exemplo circulam por nosso país as armas americanas, francesas, alemãs,… As armas do mundo todo!  Sempre foi assim: primeiro mandaram essas mercadorias para a Africa, depois para a América central e para o Brasil. Então a violência é uma coisa global, pois cada um participa desse processo, de certa forma; e na minha opinião a violência vem muito mais de um ódio racial, forte no Brasil, ou seja ela não surge apenas por uma razão econômica. E na verdade, o ódio logo traz à tona a questão ecônomica, o ódio gera o apartheid, como em qualquer lugar do mundo. Em termos sociais, tudo foi aos trancos e barrancos, a escravidão foi uma guerra que durou 400 anos no Brasil e que, de certa forma, continua.”

 

  • A sua literatura, junto com a do Ferréz, é considerada como sendo uma literatura marginal, que aborda muitas vezes o problema do racismo na sociedade brasileira. Hoje o racismo ainda existe, como você o aponta.  Em que medida  a população negra se constrói através da cultura,e assim cria uma identidade? E de que maneira sua literatura permite inventar e exaltar essa identidade e cultura negra?

P.L: “É…  A população negra construiu uma cultura, porque se não o tivesse feito, já teria acabado a raça negra; e de fato no Brasil o negro não se inseriu na sociedade através do trabalho, como deveria ser. O negro entrou na sociedade através da cultura, da música, da religião. Os franceses fizeram no Caribe o que os portugueses não conseguiram fazer no Brasil: em Guadaloupe os negros não têm uma relação forte com a África, com umbanda, nem com samba, são cidadões franceses, sim, mas mesmo assim são descriminados. Os franceses foram cruéis e conseguiram apagar uma cultura ancestral porque tinham poucos negros. Para vôce poder dominar um outro povo é preciso acabar com o Deus dele. Ora, o negro no Brasil inseriu-se na sociedade através da força da sua cultura e da sua religião. Agora, no caso de Cidade de Deus, as pessoas tinham em mente uma imagem deformada das favelas,  apenas vendo e lendo as nóticias dos jornais; porém, meu romance procura mostrar a realidade da favela e a situação do negro no Brasil através de sentimentos, com uma fala diferente de uma perspectiva de nóticia. É nesse sentido que minha literatura é engajada e traz algo de revelador”

 

  • Uma das bases para a evolução de uma nação é a educação, mas existem disposições nas favelas para que as crianças se envolvem com a literatura?

 

P.L: “Sim, tem muitas feiras de livros, muitos contadores de histórias, e apesar do governo atual ser muito criticado,  algumas reformas fizeram com que o negro entrasse na universidade com mais facilidade, abrindo as portas para a educação nos meios sociais desfavorecidos. Então houve uma inserção educacional e cultural para os Negros e isso é um avanço. “

Entrevista feita por Raimonde Pierre

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