A Crónica da Pata-choca

 “O que não te mata, torna-te mais forte … Ou

 Esta é a história de uma menina muito bela e gentil que vivia num reino longínquo chamado Clermont-Ferrand. A história que lhes vou contar é uma história sobre por que me tornei uma pata-choca, até hoje:

Era uma vez…Uma segunda feira normal, dia 1 de setembro.

O dia até tinha começado bem, porque pela primeira vez não me esqueci de acordar e nem sequer fiz com que o meu telemóvel voasse pelo quarto por ter começado a tocar às 8h em vez de tocar às 8:05. No trabalho, depois de ter corrido de um lado para o outro durante 9 horas, levando calcinhas e sutiãs com mais Push-Up que sutiãs às meninas que têm como ideal Nabilla ou Kim Kardashian, tinha a sensação de dever cumprido.

Bem, no final do dia, cansada, dirijo-me para minha pseudo Harley Davison que faz mais ruído que um secador de cabelo, tranquila em direção ao meu Home Sweet Home. Até consigo fazer os primeiros 100 metros mais rápido que o Tramway e, de repente, o carro do Nody vem atravessar-se na minha frente, e corta minha passagem !!!!

Nesse momento perguntei a mim mesma, o que vou fazer agora? Que vou dizer se chego atrasada? Vamos ter que ficar muito tempo depois a fazer os papéis do seguro, agora! Ele tem a culpa! Reage menina! reage!!! Então, viro o guiador qual cena digna do Fast & Furius – não sei se estão a ver – e salto sentindo-me mais ágil que o Homem Aranha…

Nesse instante, quando o tempo parece que se põe em pausa e a minha vida desfila diante dos meus olhos, comecei a ver a minha vida a andar para trás!! Eu já via a cara da minha tia tão zangada como o diabo e que me ia dar a tareia da minha vida se o scooter tivesse um só arranhão. Ainda tentei pegar meu Scooter como na cena onde Néo  esquiva as balas no Matrix.

Depois, nada. Silêncio. Vazio. Após esta façanha encontro-me deitada como uma boneca no chão e a música da Disney começa a tocar… Assim com o vento nos cabelos vejo chegar dois cavaleiros muito engraçados para resgatar a princesinha no chão, e penso: ufff ainda há cavalheiros no mundo… mas afinal estavam mais preocupados em levantar o scooter do que em socorrer-me e eu tive que levantar meu corpo esparramado e magoado no chão sozinha e voltar para a casa…

No dia seguinte diagnóstico: o dedinho pequeno perdeu um pedaço que foi para outro lado, e o metatarso partido como uma espiral. Para piorar, deram-me uma bota de Cyborg e aí sim começaram as verdadeiras chatices…

De manhã, em qualquer manhã normal, o tempo já parece passar muito de presa, mas ter um pé partido não facilita a tarefa de arrastar seu corpo para fora da cama. Para poder levantar-me tenho que furar cada cinto da bota para andar uns 10 metros que separam o meu quarto da casa de banho, no chuveiro tenho que aguentar-se como numa corda bamba sobre um pé só, para me lavar, como se estivéssemos em um espetáculo de circo. Sem falar do caminho sem fim do Tramway para a faculdade que, tenho a ligeira impressão, vai aumentando e ficando mais longe a cada dia que passa.

Mas a cereja em cima do bolo vem no momento de trocar de sala para trocar de aula: em vez de ir pelas escadas, tenho que fazer a volta completa para atingir o elevador, e chego à aula morta de cansaço e tudo  é assim… uma bagunça, uma complicação se quero fazer alguma coisa mínima, toda a banda de assistentes que preciso para fazer as coisas mais insignificantes do mundo.

Hoje, 2 meses depois do acidente, ainda não posso trabalhar, não posso usar os sapatos de sempre, e isso me faz refletir que um acidente tão pequeno te faz voltar para a infância onde éramos dependentes de outra pessoa, e te faz perceber que mesmo com uma deficiência tão mínima e temporal, para a gente com uma deficiência permanente é muito complicado e é uma proeza quotidiana sair de casa para o trabalho e mesmo ter uma vida normal!

Mas a pequena história que me vai ficar deste tempo de crise é que pela primeira vez na vida já estive – de forma legal – no lugar de estacionamento destinado às pessoas com deficiência. E isso fez-me pensar…

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