Os Himbas

por Erico Nicola Espada Silva, LLCE1 português

Hoje em dia a população tem tendência a uniformizar-se, deixando de lado as tradições, é por isso que vou apresentar uma das tribos africanas mais conhecidas e mais antigas que luta diariamente pela sua existência, essa tribo chama-se “Himbas”.

Quem são os Himbas ?

Os Himbas são um povo semi-nómada africano e um grupo que provem do povo Hereró, este povo é mais conhecido sobre o apelido de “o povo vermelho”. Esta tribo é muito antiga, foi descoberta no século XV, mas sem dúvida que já existia antes, só que o território Africano ainda era um território inexplorado pelos europeus, e então a maioria dos povos africanos eram desconhecidos na Europa.

Noiva Himba

Inicialmente esta tribo habitava num só território porque os países Africanos ainda não estavam definidos, tal como os conhecemos atualmente. Hoje em dia, podemos dizer que os Himbas vivem algures entre a atual Namíbia e o atual território de Angola. Este povo foi dividido em dois após a criação destes dois países, o que criou uma separação da tribo.

 Os Himbas são uma etnia Bantu que vivem principalmente no Kaokoland (atual região de Cunene), um território imenso, desértico e um pouco montanhoso. Estima-se que vivem 10 000 habitantes no Kaokoland o que faz 1 Himba por km quadrado, e em Angola existem 3 000 habitantes, que se situam ao longo do rio que separa os dois países.

Esta etnia apresenta alguns traços distintivos das demais tribos africanas que cativaram o nosso interesse, por exemplo, eles são uma sociedade matriarcal.

Mas o que é uma sociedade matriarcal?

Podemos afirmar que é uma coletividade na qual a mulher tem um poder muito importante. É uma organização onde o sexo feminino pode exercer um poder político ou económico. Nesta tribo as mulheres também transmitem o direito de propriedade e de herança, isto significa que é a elas que pertence o gado e as casas onde elas vivem.

Os Himbas estimam, por exemplo, que os pais transmitem uma propriedade espiritual e a mãe a propriedade de sangue, mais basicamente os pais transmitem toda a cultura, o saber, etc. e as mães tudo o que é do domínio material: casa, gado…

Assim são constituídos dois clãs: os herdeiros da mãe que são chamados os Eanda e os herdeiros dos pais que são os Oruzos.

 Todos os grupos culturais possuem as suas tradições, hábitos, lendas e costumes. A mais visível na tribo dos Himbas é sem dúvida a tradição indumentária. Eles não são chamados o Povo Vermelho sem nenhuma razão. Os Himbas têm a tradição de pintarem a pele de vermelho. Mas porquê ?

É sobretudo uma questão de prática, porque esta pigmentação da pele permite protegê-los do calor, dos raios de sol, da secura do ar e sobretudo dos insetos. Esta pigmentação é feita à base de gordura animal, de cinzas e de argila.

Os acessórios e os penteados também são elementos aos quais os Himbas dão um grande significado. O penteado da mulher por exemplo pode significar o estado civil da mulher : depois do casamento elas colocam um pequeno chapéu em pele de cabra que se chama o “errembe”, e assim os outros solteiros da tribo já sabem que esta mulher é casada.

Quando são pequenos, homens e mulheres, têm tranças mas as do homem são para a frente e as das mulheres para trás, depois do casamento a trança do homem é posicionada para trás.

 As mulheres colocam  pulseiras em couro e colares. O significado destes é mais pessoal e difícil de compreender… Mas, por exemplo: un colar com uma concha branca é sinal de fertilidade, este colar chama-se o “ohumba”.

 Ao nível culinário eles alimentam-se à base de carne, leite, cereais e frutos. Habitualmente as mulheres preparam a comida, mas, são os homens que se ocupam de caçar e tratar do gado.

O gado é uma riqueza para este povo, é o sinal da riqueza de cada família, quanto mais gado possuírem mais influência têm na tribo, dado que o gado também é muito utilizado no sistema de troca e venda. E o roubo pode ser condenado pela morte.

Este gado também é usado para pagar o que podemos chamar de crimes, multas e violações…

-Por exemplo:

-se alguém ferir outro, deve pagar 8 bois.

-se as feridas matarem, 35 bois para um homem, e, 45 bois se for uma mulher.

-se um homem dorme com a mulher de um outro 6 bois, 3 bois são para o homem e 3 bois são para a mulher.

E como toda a gente, os Himbas têm a suas ocupações, para se divertirem eles inventaram alguns jogos como matangululu, que é o mais conhecido e que consiste em um duelo de cariz físico entre duas pessoas. Outros jogos existem semelhantes ao matangululu, que consistem em duelos um pouco como a esgrima. Os protagonistas destes jogos são sobretudo os jovens que querem mostrar a sua agilidade e a sua força.

Em termos religiosos, os Himbas têm algumas tradições bastante singulares.

Para muitos a religião é venerar um deus. Os Himbas são diferentes, eles veneram sobretudo os seus antepassados, os que já morreram. Eles consideram que os seus antepassados ainda estão vivos mas de uma outra maneira, como espíritos.

De uma certa forma, podemos dizer que estão ligados a um certo do idealismo filosófico, como o defendido por Bergson na tradição ocidental. Este filósofo, representava a morte através da metáfora do prego e do lenço, o corpo é um prego que prende o lenço ( o espírito) na parede (as situações da vida) e quando este prego cai o lenço liberta-se do que o aprisionava, sendo assim livre.

Como todas as tribos africanas desta região, o povo Himba tem um feiticeiro, uma espécie de guru , um sábio que pode entrar em comunicação com os antigos espíritos, e, por vezes, consegue ver o futuro. Estas pessoas chamam-se otchimbandas, eles podem curar um espírito doente, através da magia branca ou de ervas medicinais.

Para concluir sobre os Himbas, eles pensam que existem espíritos e não um deus. Que cada espírito é livre e que nunca se deve faltar o respeito a um espírito antigo senão serão castigados.

Os tempos passam… e a África evoluiu em termos geopolíticos e nomeadamente em termos de fronteiras. Esta mudança provocou uma enorme dificuldade a estas tribos, que tiveram de se separar fazendo nascer outras.

Para compreender a disposição destas “novas” tribos temos que estudar a situação geográfica destes povos.

Para começar Angola é constituída de 18 províncias: Bengo, Benguela, Bié, Cabinda , Kwando-Kubango, Cunene, Kwanza-Nord, Kwanza-Sud, Huambo, Huíla, Luanda, Lunda-Norte, Lunda-Sul, Malanje, Moxico, Namibe, Uíge, Zaire.

O número de províncias mostra bem que Angola é um país constituído por várias culturas. Por exemplo, em Angola falam-se seis línguas bantus que têm um estatuto de língua nacional que são o Umbundo (35,7 %), Kimbundu (26,7 %), quicongo (9,8 %), chokwe (4,5 %), nganguela (6 % ) e finalmente kwanyama. A multitude de línguas faladas é uma prova da multitude de culturas que coabitam no mesmo território.

Tal como Angola, a Namíbia está divida em 13 regiões, cada uma com uma capital diferente.

A língua oficial é o inglês mas só 7% da população o fala realmente.

Mulher Mudimba

Entre as tribos mais populares derivadas dos Himbas, existem os Mudimba, muito parecidos com os Himbas, mas este povo não vive de maneira tão isolada, eles têm contactos com o mundo exterior.

O que os caracteriza é sobretudo os cabelos coloridos, os penteados, e sobretudo uma maneira de se vestir bem típica do país, com roupas bem coloridas, com tons que representam este mesmo país que é Angola.

Depois existe a tribu Mucubal (Mucubai, Mucabale o Mugubale) o que caracteriza esta tribo é sobretudo as tradições de vestuário das mulheres que têm um chapéu na cabeça que se chama Ompota, com padrões por vezes atípicos e bem coloridos mais uma vez, também têm uma corda que lhes aperta o peito que se chama oyonduthi, a origem desta tradição é desconhecida mas crê-se que deva haver alguma questão prática ligada ao uso dessa corda.

Mulher Mucubal

 Os Mocubals são um povo semi-nómada.

A lenda diz que este povo é conhecido pela sua resistência, por vezes podem andar e correr 80km por dia.

Esta tribo é herdeira dos Hererós mencionados antes. Este povo tem mais de 300 anos e vive ou nas montanhas do Chela ao norte da Namíbia ou ao pé do rio Cunene.

 Mais parecido com algumas pequenas comunidades ou vilas africanas de algumas dezenas de habitantes que vemos na televisão, existem os Mucawana (Muhacaona) que vivem em cabanas de madeira. Estas pequenas aldeias aonde vivem os Mucawana encontram-se no sul de Angola.

Esta tribo é bem mais moderna e tem um contacto com o mundo exterior, não vivem isolados. Podemos, por exemplo, encontrar reportagens não muito antigas na internet, porque durante a guerra civil de Angola os estrangeiros não podiam de entrar no país e foi só a partir dos anos 2000 que os repórteres começaram a interessar-se por estas tribos e puderam realmente ir ao seu encontro.

Por fim, a tribo Mwila (Mumuhuila o Muhuila), é um bocado diferente das outras, sobretudo para as mulheres.

Quando a mulher nasce coloca-se-lhe um colar à volta do pescoço (como as mulheres girafas da Tailândia) e esse colar vai acompanhá-las toda a vida. Cada etapa superada adicionam um colar e assim a coluna vertebral é puxada e o pescoço cresce, o problema é que esses colares não podem ser retirados senão o pescoço parte e a pessoa morre.

Mulheres Mwila de Angola, foto de Eric Lafforgue

A pesquisa sobre estes povos permitiu-nos compreender uma certa evolução geográfica que foi provocada pela criação de alguns países africanos como Angola ou a Namíbia. A criação de fronteiras, como referimos anteriormente, e os condicionalismos históricos associados ao colonialismo e mais tarde à independência destes países permitiram-nos entender melhor a existência e separação destas tribos que, mesmo se são parecidas acabam por ter sempre alguma coisa que as diferencia.

No entanto, pudemos também compreender como é cada vez mais difícil manter estas tradições, que seja por causa da “invasão” da civilização moderna, nomeadamente das civilizações ocidentais, ou mais naturalmente por causa das frequentes secas que existem nestes países, assim como a distribuição dos territórios, porque como mencionado anteriormente, a maior riqueza destes povos é o gado ou territórios para as pastagens e isso pode comprometer a existência futura de certas tribos. Infelizmente, em muitos casos, assistimos ao longe a uma espécie de “crónica de uma morte anunciada”*.

* título de um romance publicado em 1981, de Gabriel García Marquéz.

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