«O Herói» de Zézé Gamboa, espelho político-social de uma Angola pós-guerra

por Rudi Rebelo, LLCE1 português

O cinema sempre foi um meio usado pelos artistas para denunciar os erros da sociedade em que vivem. Como exemplo, podemos citar o cinema soviético dos anos 20, no qual era colocada em cena a questão de dar o poder ao povo e não ao governo. Assim, o que permitiu o impulso do comunismo foi em grande parte o cinema do tempo, como «O Encouraçado Potemkim» de Sergueï Einsenstein, no qual a população é uma personagem por inteiro e que se revolta contra um poder autoritário e não democrático.

Nessa mesma perspetiva, vamos ver numa primeira parte que «O Herói» é uma transposição da sociedade Angolana pós-guerra, e em seguida que este filme também é uma denúncia do poder político em Angola.

Para começar, seria interessante lembrar a sinopse do filme. A história é simples, o Sargento Vitório, depois de ter pisado uma mina vê-se amputado de uma perna. Ele terá de recomeçar a sua vida de civil, aleijado e marcado por uma guerra devastadora. Também seguimos em paralelo a vida de um órfão em busca de seu pai, que partiu para a guerra sendo ele muito jovem.

Assim esta sinopse nos revela duas coisas. A primeira sendo que estas duas personagens não são nada mais nada menos que alegorias. Vitório, amputado, aleijado, é a Angola que viveu a Guerra Civil a partir de 1975 lançada pela independência do país. Marcada para a vida pelo conflito, esta Angola tenta se reconstruir, mas também tem de viver com as suas cicatrizes e fantasmas.

De facto, esta Angola está assombrada pelas memórias da guerra passada. Tal como Vitório ao longo do filme. Aqui estão algumas das palavras de Zézé Gamboa que explicam esta análise:

«Estes 45 anos de guerra foram muito pesados, deixaram cicatrizes que vão demorar muito a sarar. A minha responsabilidade de cidadão e cineasta é a de chamar a atenção da sociedade civil e das autoridades para lhes dizer que isto não pode voltar a acontecer. Acho que para exorcizar a lembrança da guerra O Herói é um filme importante para todos os angolanos. Sendo uma ficção, mostra o estado problemático do país neste momento

A outra Angola aqui representada de forma alegórica é a geração que nasceu logo depois desta guerra. Se sentindo órfã, perdida, sem verdadeira identidade ou porque simplesmente o país se sente abandonado.  Esta Angola procura as suas origens, tal como a figura do menino órfão que procura o pai.  Indo mais longe, e tendo em conta o facto que o órfão vive com a sua avó podemos notar aqui a correlação da Angola «antiga» e da Angola «jovem» tendo as suas próprias dificuldades, mas vivendo juntas, e tentando se ajudar mutualmente.

Por outro lado, este filme é a denúncia do poder político de Angola. De facto, através da personagem do político, Zézé Gamboa faz uma crítica dura aos dirigentes angolanos. Este político acumula muitos defeitos. Ele é egoísta, não pensa no povo que tem a seu cargo mas pensa sim em seu próprio interesse. Assim, o povo Angolano é abandonado pelo homem, e aqui se encontra o ponto de vista do cineasta. Porque além de estar perdido quanto à questão das suas origens, o povo Angolano procura também um poder político estável.

Pois como se pode ver no filme, a identidade política do povo é inexistente. E um povo sem identidade política –  polis sendo a cidade em grego antigo – é um povo sem unidade, sem a sua cidade, a sua sociedade. E aqui está um problema muito grave. E Zézé Gamboa tem plena consciência disso. Aliás, o órfão também pode simbolizar este povo procurando esta mesma identidade política.

A negligência política é mostrada através de duas outras personagens: o médico e a professora. Porque ainda que estas personagens (trabalhadoras do estado) façam tudo o que podem para ajudar o povo, a verdade é que eles são impotentes. O médico numa primeira fase será aquele que põe a prótese a Vitório, e a cena onde isso acontece mostra ao espectador que a operação é sinónima de grande espanto em Angola. Uma prótese é algo de fantástico num país onde a medicina é tão pouco avançada. Porém, muitas pessoas estão nesse mesmo hospital e nem todas podem ser tratadas.

A professora quanto a ela tenta ensinar o que pode às crianças da escola dela, mas este ensino apenas se resume a essa mesma escola e nunca será capaz de ensinar Angola inteira. Gamboa tenta assim dizer ao poder Angolano que tem de ajudar profissões como estas, essenciais para o bom desenvolvimento do país.

Em conclusão, podemos dizer que, de facto, este filme se ilustra perfeitamente numa tradição denunciadora do cinema. «O Herói» é um filme que retrata com um realismo surpreendente a psique de um país e como este teve de suportar uma Guerra Civil de quase 30 anos. O título do filme é muito irónico, Vitório está muito longe de ser um herói e no filme viverá mais como um sem abrigo, representante da decadência do país.A visão de Gamboa sobre este «herói» revela plenamente a mentalidade desiludida do país.

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