Será a praxe realmente necessária?

 Laury Pereira, LLCE3 português

Portugal conhece um desenvolvimento da prática das praxes muito forte nas suas Universidades, ao contrário de muitos outros países europeus. Isso gerou, então, muitas polémicas e tornou as praxes num assunto social bastante controverso, criando um debate sem fim. No ano passado, estive a estudar na Universidade do Porto e, ao passear na rua, assisti a algumas das cenas inerentes às praxes. Foi algo que me deixou pensativa e perplexa em relação à legitimidade e ao interesse dessas práticas recorrentes.

O fenómeno das praxes em Portugal será uma tradição ou uma integração maldosa?

Se você responder que é tradição, vou-lhe dizer que de qualquer maneira, uma tradição não justifica por si só a existência duma prática se for contra a ética. Pois, parece-me algo estranho e até absurdo como é que é delegado em jovens de vinte e poucos anos, que pouco da vida sabem, acabadinhos de sair da casa dos pais, sem quaisquer conhecimentos em psicologia, em relacionamentos entre as pessoas, sem experiência nenhuma em cargos de liderança e gestão de pessoas – basicamente sem saberem nada sobre nada – a árdua tarefa de fazer com que um grupo de outros jovens de vinte e poucos anos se sintam integrados, motivados, e com espírito de equipa e união.

Também fico perplexa com o dito resultado e “interesse” dessas praxes. Ora, pessoalmente, encontrei alguns problemas no eterno discurso dos “pró-praxes”. Como é que a invenção de uma hierarquia baseada na submissão dos mais jovens aos mais velhos (o conhecido sistema “caloiro”/“padrinho”) pode criar um espírito de equipa? Uma equipa não tem nada a ver com uma hierarquia baseada nas relações de força entre as pessoas nem na expressão de um desequilíbrio de poder entre elas. Não é só na minha opinião, pois, no dicionário também podem encontrar o sentido dado a essa palavra: “Uma equipa é um conjunto de pessoas que desempenham funções recíprocas no seio dum meio social”. Re-cí-pro-cas. Aqui está a falha do tão querido e ilusório sistema de praxes.

É do conhecimento geral que os rituais da praxe giram à volta da humilhação, da vergonha, do uso de força e de pressões psicológicas por vezes agressivas. E mesmo assim, muitos estudantes do primeiro ano aceitam este modelo de liderança. Sabem porquê? Porque eles abraçam a ilusão duma ascensão social em contrapartida de humilhações consentidas.

E agora, ainda vão poder afirmar que a praxe é sinónimo de integração e união? Força!

Não vale a pena dizer que de qualquer maneira a praxe não é obrigatória porque todos nós sabemos que se um estudante se recusar a essas práticas, não será integrado como os outros. Afinal, a política da praxe é “você pode se recusar a ser praxado mas depois, será renegado por todos nós”. Bastante agradável, não é?

Enfim, que tipo de regime autoritário é esse?

Parece-me um abuso de poder ver grupos de alunos mais velhos descarregarem as suas óbvias limitações e frustrações. Mas em vez do cenário negro e cinzento que é típico da praxe, com os caloiros de quatro, insultados, e a olhar para o chão (vi isso com os meus próprios olhos), porque não usar festas para promover a integração? E porque não usar eventos desportivos ou lúdicos para fomentar o espírito de equipa?

Já agora, no que toca à ética profunda da praxe: Têm noção de que praxe é sofrer para poder ser o próximo a fazer sofrer? Pois, os estudantes do primeiro ano aceitam ser sujeitos à praxe porque sabem que no ano a seguir também poderão fazer o mesmo aos novos estudantes do primeiro ano. Mas isso não é nem mais nem menos que uma outra coisa que vai contra a ética e que se banaliza com a única e absoluta desculpa da tradição. Não vale a pena esconder-se atrás dela, repito, não é justificação nenhuma se for contra a ética (sim, lembram-se da liberdade de expressão e do direito ao respeito?).

Já agora, queria deixar um lembrete para os estudantes do primeiro ano que duvidam do meu bom senso: Eu sei que a praxe, para muitos de vocês, marca um momento que julgam como grande mudança na vossa vida. Mas o que muda a vossa vida não é a praxe, o que muda a vossa vida é a Universidade! O ensino superior oferece a cada um de vocês um cargo com mais responsabilidades e assim favorece o vosso desenvolvimento pessoal, social e profissional. A praxe não é nada de indispensável, vocês irão viver melhor sem ela, acreditem. E para acabar essa crónica, vou apoiar esse meu ponto de vista citando Jiddu Krishnamurti, um grande sábio indiano: “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente”. Meditem.

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