José Carlos Schwarz: a voz do povo

por Mélodie Ray, LLCE1

O DVD « José Carlos Schwarz, a voz do povo » foi realizado por Adulai Jamanca, em 2006. É um pequeno documentário com uma duração de 52 minutos que fala sobre a vida e a música de José Carlos Schwarz (1949-1977), poeta e um dos mais importantes músicos da Guiné-Bissau, considerado mesmo como o fundador da música moderna da Guiné-Bissau.

Engajado pelo seu país, nomeadamente na luta pela independência, a sua música teve uma grande importância na história do país, tendo-se tornado até uma arma de combate político.

No documentário, a sua vida é contada por várias pessoas que o conheceram, entre elas, a esposa, os filhos e várias personalidades como Aliu Bari que nasceu na Guiné-Bissau em 1947 e morreu em Bissau a 19 de julho de 2013. Ele foi um dos mais consagrados músicos da Guiné-Bissau e membro histórico do grupo musical Cobiana Djazz; também aparece Filinto Barros que nasceu em Bissau a 28 de Dezembro de 1942. Este escritor, foi o responsável pelo acordar da consciência política de José Carlos Schwarz quando ambos estudavam na universidade em Lisboa, depois da independência ele foi duas vezes ministro. Estas duas pessoas foram algumas das personalidades que acompanharam José Carlos Schwarz no seu combate pelo reconhecimento da independência da Guiné-Bissau.

A Guiné-Bissau é um país da África que foi colonizado pelos portugueses. No início dos anos 70, a Guiné era uma das colónias portuguesas mais pobres. 90 % da população era analfabeta. A política e o desenvolvimento de infraestruturas de educação e de saúde no país não eram uma preocupação para a metrópole e para o poder em Lisboa. A falta de investimento no país, a pobreza generalizada e a propagação de ideais de libertação um pouco por toda a África levaram ao nascimento de ideias nacionalistas e independentistas.

Em 1956, Amílcar Cabral, fundou o PAICG (Partido Africano para a independência da Guiné e Cabo Verde), inicialmente clandestino, o PAICG foi o partido que iniciou a luta pela independência da Guiné e do Cabo Verde, tendo sido o veículo motor da guerra contra o regime colonial português. O reconhecimento da independência da Guiné por Portugal aconteceu a 10 de Setembro de 1974.

José Carlos Schwarz era uma figura importante na cultura da Guiné-Bissau. Em 1970, ele formou o “Cobiana Djazz”, uma banda formada por jovens músicos guineenses. A importância que esta banda assumiu no panorama musical guineense foi muito além da simples influência musical, isto porque José Carlos Schwarz acreditava que a mistura entre os instrumentos e melodias tradicionais guineenses se casavam perfeitamente com os ritmos modernos vindos de outros países. Ao recuperar elementos da tradição guineense, o cantor decidiu também explorar um outro instrumento cultural do país: o crioulo guineense.

Ora, na época em que a Guiné-Bissau era colónia portuguesa o crioulo era proibido, porque o poder dominante queria que a sua  língua fosse um fator de unidade. A língua portuguesa era a única língua autorizada em locais públicos e institucionais, como nas escolas e tribunais, mas na realidade, o crioulo era a língua de comunicação entre a população.

Durante as lutas de libertação do país, José Carlos Schwarz, membro do PAICG, decidiu cantar músicas em crioulo, como por exemplo “Mulheres di pano preto” ou “ke ki mininu na tchora” para despertar a consciência dos guineenses para as lutas de libertação e para a questão da colonização.

Na época, as músicas em crioulo não podiam passar nas rádios nacionais, no entanto, Óscar Barbosa atreveu-se a passar as músicas de José Carlos Schwarz, iniciando assim uma profunda mudança na forma de pensar e de sentir o crioulo como fator da identidade guineense: o crioulo era uma língua a ser respeitada, como o português.

O atrevimento destes artistas acabou por transformar a poesia e a música em instrumentos de combate político. As músicas em crioulo passadas na rádio, tiveram um alcance imenso e despertaram a população para o problema do conflito colonial; ao cantar a realidade diária das populações guineenses e os traços culturais próprios ao país, o cantor elevou o crioulo ao mais alto lugar do valor cultural e de identidade nacional: ao de língua.

Depois do fim do conflito colonial, J.C. Schwarz tornou-se diretor do Departamento de Artes e Cultura da Guiné-Bissau, tendo especial importância na área da infância. Mas problemas diversos com as autoridades guineenses, nomeadamente o descontentamento do cantor em relação à corrupção que assolava o governo do país, levaram a que ele fosse afastado da política nacional, tendo sido enviado para Cuba, em 1977, como embaixador do país. O artista viria a morrer no mesmo ano, na sequência da queda do avião no qual viajava.

Eu acho que este filme documentário é muito interessante e bem realizado porque não são historiadores ou jornalistas que falam no filme mas pessoas familiares como a sua esposa, os seus filhos e os seus amigos. As pessoas que falam neste documentário viveram a história do país e conheceram bem José Carlos Schwarz e isto dá mais interesse ao filme. Neste documentário, aprendi que a Guiné-Bissau era uma colónia portuguesa muito pobre. E eu não pensei que a música poderia ser um instrumento de luta e também um instrumento de luta extremamente eficaz nomeadamente no caso da independência da Guiné-Bissau. Para mim, a história de José Carlos Schwarz é bastante interessante do ponto de vista político: um músico, que gosta da política e que faz passar a sua mensagem através da música para fazer mudar as mentalidades e assim obter a independência do país. Ele marcou a história do país e com este documentário que fala da sua vida, o realizador permite-nos lembrar a história recente da Guiné-Bissau através de uma figura pouco conhecida na atualidade, sobretudo fora do país.

Aqui fica um exemplo de uma das músicas que passavam clandestinamente na rádio:

JOSÉ CARLOS SCHWARZ

(Zé Carlos)

“Ke ki mininu na tchora”

Do que chora a criança
Ke ki mininu na tchora
I dur na si kurpu
ke ki mininu na tchora
I sangui ki kansa odja (2x)
Pastru garandi bin
ku si obus di fugu
Pastru garandi bin
ku si obus di matança
Montiaduris ki ka kunsidu
e iara e fuguia na tabanka
Montiaduris pretus suma nos
e iara e fuguia na bolanha (2x)
Matu kema ah, ah…
Kasa kema ah, ah…
Dur, dur, (ai!) dur na no alma (2x)
Do que chora a criança?
É dor no seu corpo
Do que chora a criança?
É sangue que cansou de ver
Um pássaro grande chegou
Com ovos de fogo
O pássaro grande veio
Com os ovos da morte
Caçadores desconhecidos
Enganados metralharam a tabanca
Caçadores, pretos como nós
Enganados metralharam a bolanha
Queimou-se o mato
Queimaram-se as casas
Perdurou a dor na nossa alma

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