No fim do mundo com o lobo-guará

por Enzo Soccio

Situado no Parque Nacional da Caraça, o santuário do mesmo nome é uma dessas grandes riquezas que a nossa civilização conseguiu preservar. Antigo colégio, o mosteiro se tornou hoje um lugar turístico perfeito para quem quer descansar. A cidade mais perto está mais ou menos a 25km. Preservado num meio natural protegido, o santuário é também o lugar dum fenómeno único: cada noite, um dos padres ainda presente no mosteiro alimenta o lobo-guará, um momento mágico, durante o qual o homem prova que ele ainda pode ter uma relação particular com a natureza.  

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Já há algum tempo que queria fazer esta viagem. Para isso, precisava de ir até Santa Bárbara, Minas Gerais, Brasil. Não é muito longe de Belo Horizonte, a cidade onde eu estou há cerca de seis meses: 90 quilômetros, mais ou menos.

Num desses finais de semana durante o qual dá aquela preguiça de sair de casa eu me decidi. Um congestionamento belo-horizontino depois, estou no ônibus, pronto para a  aventura. Não foi a primeira vez que eu peguei um ônibus para viajar no Brasil, e gostei desse meio de transporte, muito mais confortável do que os ônibus europeus, mas não sei o quê e como aconteceu, essa viagem durou 4 horas! 4 Horas para fazer 90 quilômetros! Mas tudo bem, esse pequeno contratempo não vai acabar com minha motivação, pois tenho ainda quatro horas para chegar à entrada do parque nacional, antes do fecho às 17h.

Só falta um meio de chegar até ao parque… Vou perguntar à moça que vende as passagens. Ela me respondeu com toda a simpatia que têm os brasileiros que ela não sabe e que não preciso me preocupar: vai dar certo. Não quero ficar nessa cidade, mesmo não sendo horrível, não parece muito turística. Decido ir ao barzinho da rodoviária, e beber uma cerveja, com esse tempão que eu fiquei nesse ônibus, mereço ao menos isso. Minha “Brama” na mão decido perguntar a toda a gente se eles sabem de um meio de transporte que poderia me levar até ao parque, a resposta foi unânime: “O táxi!”.

Não pensei tomar um táxi para chegar ao santuário e já estou pensando que minha bolsa de estudos  não vai cobrir meu mês. Mas quero ver esse lobo! Me aproximo de um táxi e pergunto qual é o preço que ele pode me fazer para me levar até ao mosteiro: “São 70 reais, preço único e a entrada no parque já ‘tá incluída”. Eu resmungo que acho isso caro, mas vendo que o motorista não está a fim de me fazer um desconto eu aceito, o que eu vou descobrir depois da corrida é que é um preço justo, até barato. Muitas vezes durante o tempo da corrida eu pensei que o motorista não entendeu qual foi o lugar onde eu queria ir. Pois a gente fez uns 10 quilômetros antes de chegar à entrada do parque! Ainda fizemos 15 quilômetros dentro do parque para chegar ao santuário. Minha primeira impressão até aqui? Nunca vi tanta natureza! Suprima a estrada e pode olhar em todas as direções sem ver nenhuma marca do homem!

15H00. Finalmente consegui chegar ao Mosteiro da Caraça! Reservei uma cama num quarto de três pessoas, e a moça da recepção me propôs baixar o preço como se o quarto estivesse cheio, pela simples razão que estamos num mês pouco turístico e que não haveria muitas pessoas no final de semana. Achei essa atitude muito honesta da sua parte e agradeçi a ela com um sorriso enorme antes de partir à descoberta do meu quarto. É preciso saber que todos os quartos estão situados no antigo mosteiro, quer dizer, num espaço maravilhoso e muito bem conservado. Pois descobri, no pequeno fascículo do santuário, que a sua construção começou em 1770. Descubro um quarto de tamanho normal, com três camas. Tudo é meio austero e acolhedor ao mesmo tempo. E a vista para os jardins é uma maravilha! “Aconselho não abrir a janela de noite, já aconteceu de encontrar algumas surpresas ao acordar!” me fala um homem passando no corredor. Sorri e continuei a ler o pequeno fascículo. Depois de ser fundado pelo Irmão Lourenço, o mosteiro se tornou, em 1820, um Colégio, administrado pelos padres Lazaristas. Com mais de 10 000 estudantes ao longo da sua existência, o colégio se demarcou pela sua excelência acadêmica, acolhendo, inclusive, alunos que se tornaram Presidentes (Afonso Pena, Arthur Bernardes), Governadores (Olegário Maciel), mas também deputados, senadores, vice-presidentes e altos membros eclesiásticos…

19h00. Hora do jantar! Depois de algumas dificuldades para encontrar o refeitório (tem um para o café da manhã e um outro diferente para o almoço e o jantar) consegui (ou dei conta como dizem os mineiros) chegar na sala que eu achei a mais grandiosa do mosteiro. Não era excessivamente ornamentada, mas quase tudo de madeira, o que dava à sala esse caráter luxuoso da austeridade desse tempo. E para falar do mais interessante para uma pessoa que viajou horas para visitar um lugar: o buffet era maravilhoso. O conceito? Você pode comer tudo que quiser à vontade: feijoada, caldo quente, feijão tropeiro, frango ao molho pardo, mousse de maracujá, brigadeiro etc.  Todos esses pratos gostosos dos quais hoje eu tenho saudade!

20H30. O momento tão esperado! Todas as pessoas se reuniam na pracinha da capela para esperar o lobo. Mas antes disso é preciso ouvir o Padre Tobias contar a história do mosteiro e do lobo, um homem fascinante que conta a história de um lugar fascinante, que eu não contarei aqui porque não tenho como contar essa história de um jeito tão interessante.

Depois disso, todo o mundo se senta em bancos e espera. Bom, ok, a gente não ficou só à espera, o barzinho do mosteiro propunha a melhor caipirinha que eu já provei e um vinho de jabuticaba que vale a pena provar só pela curiosidade (e porque é muito bom também). Esperando o lobo, o lugar e talvez a bebida ajudam a criar contatos. Encontrei brasileiros de todos os estados, ingleses, franceses, alemães, argentinos, americanos… Um grupo bem cosmopolita! E quando se olha o céu, um outro sentimento chega: o de redescobrir o mundo, aqui neste lugar que para mim representa a ideia mais perfeita do “fim do mundo”.

01h14. Fomos avisados, que às vezes o lobo aparece, e que às vezes é preciso esperar horas antes de o ver. Felizmente, hoje o lobo se fez desejar mas acabou por chegar. E que chegada! Alguns segundos antes de o ver, todo o mundo se calou, sem realmente saber porquê. Uns degraus permitem ao lobo de chegar ao nosso nível e vir comer na panela que o padre colocou. Não sei como o qualificar: majestoso, nobre, lindo! Todos os adjetivos podem ser atribuídos a essa criatura. Eu fiquei perto da estrada e o lobo quando chegou ficou apenas a um metro de mim. Felizmente ele pareceu mais interessado pelo frango da panela do que pela minha perna.

Mas não pensem que ele é domesticado: ele vem e volta segundo o seu humor… e, às vezes, ele parece incomodado de comer em frente de tantas pessoas. A cena durou 2 minutos até ao lobo ir embora… Assim, tal como veio, foi embora, num abrir e fechar de olhos. Quando todos os outros foram dormir eu decidi ficar um pouco mais, esperando ainda ver o meu novo animal preferido. Eu não esperei muito tempo, apenas 20 minutos depois ele reapareceu, e percebi que estava sozinho em frente a ele. Não tive medo não!  Este momento foi mágico, mas o único meio de entender porquê é ir lá e descobrir. Na Caraça eu descobri muitas coisas: descobri um mundo escondido, descobri um momento da História brasileira, descobri muitas coisas sobre mim também, mas sobretudo eu descobri a magia desta natureza que muitas vezes o homem esquece.

LOBO

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