Salve o Orlando

por Aurélie Hillairet

Apesar de beneficiar de condições climáticas ótimas, o engarrafamento cotidiano em Belo Horizonte, torna a vida do dia a dia em um pesadelo. Aarão Reis, que desenhou a cidade no fim do século XIX, não podia prever o rápido e enorme crescimento da cidade. Quem mora lá fica preso todos os dias no trânsito e na poluição. Mas nesta selva de prédios atapetada pelo asfalto existe um cantinho privilegiado que ainda se parece com uma cidade do interior… ou existia…

O cantinho do qual estou falando é um bairro de Beagá (Belo Horizonte): Santa Tereza. Devido à localização do Centro de Imigração, o bairro foi ocupado inicialmente por imigrantes, em sua maioria italianos. O bairro chamou-se também « região do isolado », por existir um hospital que tratava pacientes com tuberculose. Recebeu seu nome atual em 1928 em homenagem à igreja situada na praça Duque de Caxias, a principal praça do bairro. Ficou famoso por ser o berço do famoso Clube da esquina que marcou o início da carreira de Milton Nascimento, Lô Borges, Márcio Borges, Fernando Brant, entre outros. Até hoje o bairro é considerado o mais boêmio da cidade.

Logo quando cheguei fiquei impressionada pela beleza do bairro e pelo ambiente descontraído que emanava… Minhas impressões se confirmaram no passeio que dei no bairro no dia seguinte. Ao contrário dos outros bairros da cidade este foi preservado, pois a maioria dos edifícios são casas e os prédios mais altos só têm três andares. As fachadas coloridas são realçadas pelas flores de intensas cores e, na praça principal, crianças jogam sob o olhar das mães sentadas nos bancos. Ao princípio, devia ter ficado lá uma semana, o tempo para arranjar um alojamento mais próximo da faculdade pois todo dia tardava mais de três horas para ir e voltar. Mas no final desta semana não queria mais mudar.

Pouco depois de minha chegada, descobri meu bar preferido, o bar do Orlando, ou melhor dizendo o boteco do Orlando. Um boteco é simplesmente um bar simples onde as pessoas vão para bater um papo e onde se vende bebidas e petiscos. Belo Horizonte é conhecida como a capital nacional do boteco, pois existem cerca de 12000 estabelecimentos. Até é organizado o festival da “comida di buteco” no qual os consumidores podem votar para eleger quem possui a melhor e mais tradicional comida de boteco. O bar do Orlando nem é registrado no mapa do site oficial do festival e parece-me que nunca participou do festival. Talvez seja melhor assim. O encanto deste botequim é sua autenticidade. Servem comida simples: linguiça, torresmo (pedaço frito de pele de porco), batata cozida… e cerveja gelada. Sempre sem pressa mesmo quando o bar estiver lotado. E pior ainda se o time do atlético estiver jogando este dia… Nem pensar se o time marcar um gol… O bar é “pequeninin” e dentro, não cabe mesa não, viu. Tem apenas algumas fora. Tanto faz, o bar está situado na esquina de uma praça então o pessoal senta nos banquinhos ou ocupa a calçada. O melhor deste bar é que quase sempre tem uma galera bem bacana tocando música. Este bar é um ponto de encontro importante não só para os habitantes do bairro mas também para os belo-horizontinos. Mas esta vida cultural assim como todos os estabelecimentos situados na praça estão ameaçados…

O projeto urbanístico Nova BH, elaborado pela prefeitura, riscaria vários estabelecimentos tradicionais no bairro do Santê, entre os quais o Orlando. Segundo seus autores, o plano prevê melhoria da vida dos habitantes da cidade reestruturando algumas áreas, incentivando os transportes públicos e favorecendo as ciclovias… O paradoxo é que estes estabelecimentos do Santê estão ameaçados de destruição pelo projeto de alargamento de uma rua. O projeto não deixa de suscitar inquietudes e de provocar polêmicas. Em uma entrevista, Márcio Lacerda, o prefeito de Belo Horizonte (http://globotv.globo.com/rede-globo/mgtv-1a-edicao/v/prefeito-de-belo-horizonte-explica-novo-projeto-urbano-para-area-da-cidade/2902301/), usa palavras tranquilizadoras e afirma que “ a verticalização é a palavra banida do processo”. Mas o que ele acrescenta depois é incompreensível para quem não domina a linguagem política: “a base de uma operação urbana consorciada é a redução linear do coeficiente de aproveitamento”…Ele explica depois que a prefeitura colocaria em leilão a venda de certificados para que empreendedores possam verticalizar novas áreas de construção de forma planejada. O fato de que a verticalização seja submetida ao apetite econômico da prefeitura não tranquiliza os belo-horizontinos. As características socioambientais, culturais e históricas do bairro do santa Tereza foram preservadas pela ADE – Área de Diretrizes Especiais : as edificações do bairro têm sua densitometria e altimetria limitadas. Foi assim que o bairro foi protegido  da verticalização decorrente da especulação imobiliária desenfreada. Mas, em agosto de 2013 foi avaliada a flexibilização da ADE pelo Conselho Municipal de Política Urbana. Neste mesmo ano, investidores internacionais demonstraram interesse em construir um prédio de 85 andares no bairro de Santa Tereza.

Os habitantes da cidade,  além de estarem conscientes do potencial turístico que representam alguns edifícios que viriam a ser derrubados, estão-se organizando em comitês populares contra a destruição do seu patrimônio histórico e cultural. Um das maiores críticas é que os habitantes não foram consultados sobre as grandes mudanças que iriam acontecer nos seus próprios bairros ao contrário do que está escrito na Cartilha nova BH que diz que é “um projeto pensado junto com a sociedade” e que a prefeitura contratou um Estudo de Impacto de Vizinhança. Ademais, o projeto está em fase final de elaboração e nem precisa ser elaborado pela câmara de vereadores para ser realizado. Alguns habitantes para denunciar as contradições do projeto preferem se disfarçar de palhaços para não chorar…


O bar do Orlando ao fundo à esquerda

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