França: cadê seu lema?

 

A França. Você pode perguntar para qualquer pessoa no mundo, o que a França representa na sua imaginação, eu tenho a certeza que quase todos vão responder: o país da vanguarda, do direito social e dos direitos do Homem. Para muitas pessoas isso é um fato : foi na França que foi escrita a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a mesma França que cortou a cabeça do absolutismo, e onde foi, também, levado ao seu expoente máximo o Estado-Providência. E para a pessoa que ainda duvida, só precisa ver a divisa do país : “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. Isso parece idílico? E é. Basta ver o evento legislativo marcante deste ano para que todo o idílio caia por terra: o casamento gay foi autorizado pela assembleia (segundo a promessa de campanha do candidato François Hollande, atual presidente da República). Boa notícia? Claro que é! Ao nível socio-legislativo parece que a França conseguiu  chegar até ao nível de outros países, compensando o seu atraso (tendo em conta o peso histórico da igualdade). Mas ao nível unicamente social, parece que uma grande parte da sociedade  francesa voltou a ideias e falas do século passado, no mínimo. Isso fez-me refletir sobre como é o olhar sobre a homossexualidade na França, esse pais socio-idílico.

Foi a França quem primeiro reconheceu o fato que a homossexualidade não é uma doença mental. Quando? Em 1789! A Primeira República, na sua vontade de garantir a igualdade para todos, conseguiu ultrapassar os preconceitos da época e abandonou a repressão (“penal”) da homossexualidade, vanguarda a quanto obrigas! Apesar de algumas medidas repressivas e desiguais quanto à homossexualidade na época de Napoleão (maioridade sexual apenas aos 18 anos para as pessoas homossexuais em vez dos 15 para pessoas heterossexuais), a França guardou essa lei de 1789 até à Segunda Guerra Mundial, época em que o Marechal Petain ocupa o lugar de chefe do governo da França aliada aos alemães. Nesse contexto, uma lei vai penalizar a comunidade homossexual de novo, e até 1982 amar uma pessoa do mesmo sexo será considerado como um delito. Então: França país de vanguarda?

Segundo alguns especialistas dos movimentos sociais, o debate sobre a lei do casamento e a adoção para casais do mesmo sexo foi mais violento na França que em outros países, até em alguns considerados como mais fechados a esse nível.

“La Manif pour Tous”, movimento lançado por Frigide Bargot, mostra bem o ambiente que atravessou a sociedade francesa neste ano de 2013. O movimento quis juntar todas as pessoas contra o casamento gay, mas o resultado passou mais a ser um movimento homofóbico unindo católicos conservadores, pessoas de extrema-direita, ou simplesmente agitadores felizes por atacarem uma comunidade. Porque é disso que se trata. Não se tratou só de exprimir uma oposição a uma lei, o que, de qualquer maneira, é permitido pela liberdade de expressão, mas foi realmente um ataque contra uma comunidade. “A Homossexualidade não existe”, “Homossexuais são perdidos”, “S.O.S Rússia, a democracia francesa está ameaçada” são alguns dos lemas usados durante as manifestações. O pior é que esses textos são usados por pessoas que dizem não ser contra homossexuais ou contra a igualdade mas que são pelo casamento republicano entre um homem e uma mulher. Eu quero esclarecer algumas coisas para essas pessoas: falar que homossexualidade não existe se chama negacionismo, e isso é crime na França. Falar que homossexuais são perdidos é um discurso discriminatório, também considerado como crime na França. E falar que o processo democrático  da Rússia é melhor que o francês, é  ser estúpido. Com tudo isso, a tensão e o medo da comunidade homossexual aumentou, e isso é lógico: entre 2011 e 2012, os crimes e agressões contra a comunidade homossexual aumentaram 30%, passando de 1553 até 2010 casos (segundo números  comunicados pelo jornal Libération). A sociedade francesa, uma sociedade fraterna? Se achamos que falar violentamente uns dos outros é ser irmãos, então pode ser.

Além de um clima homofóbico, próprio a algumas sociedades dos anos 40, a França voltou a um outro tipo de práticas que já estão ultrapassadas: a intervenção das igrejas no debate público. Pois, os chefes dos principais cultos (Católico, Protestante, Judaico, Muçulmano e Budista) foram ouvidos nas comissões da Assembleia Nacional. Qual foi o objetivo desses encontros? Saber quais são as opiniões dos cultos sobre como a lei vai transformar a sociedade francesa, que com certeza é um país muito religioso, sobretudo desde 9 de dezembro de 1905. O veredicto foi unânime (ao menos nisso o debate conseguiu juntar todos os cultos): a sociedade francesa não sobreviveria com o casamento gay! Ah, Laicismo…Te conquistamos durante séculos para finalmente chegar nesse ponto. Porque quando eu vejo católicos rezar pela salvação  das almas dos homossexuais em frente da assembleia nacional sem serem interpelados pela polícia eu me pergunto mais uma vez se a ideia que eu tenho do meu próprio pais ainda existe…

E o que pensam os nossos vizinhos, eles que veem em nosso país uma utopia social! El Pais se perguntou como o debate chegou a um tal ponto de violência quando a lei passou sem nenhum problema na Espanha,  um dos maiores países católicos da Europa. Na Inglaterra o debate durou 3 horas antes da lei ser aceite! Em Portugal, o governo fez passar a lei contra a opinião pública, mas em nenhum momento se ouviram prefeitos dizer “Eu tenho uma objeção de consciência e não vou casar duas pessoas do mesmo sexo”. E sabem o que é mais engraçado? Eu passei os seis últimos meses no Brasil e lá bastantes pessoas me falaram “Eu não entendo porque tem um debate tão violento na França sobre uma lei que já existe há muito tempo!”. Talvez isso represente bem a França, uma sociedade da qual todo mundo espera muito mas que não consegue ligar o passado e o presente, porque a lei passou e foi uma coisa maravilhosa, mas a sociedade francesa e a comunidade homossexual não vão esquecer tanta de violência.

por Enzo Soccio

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