Paulo Lins, um autor que dá voz à população negra

 

Escritor Paulo Lins e Raymonde Pierre, estudante de 3° ano LLCE

Escritor Paulo Lins e Raymonde Pierre, estudante de 3° ano LLCE

Esse ano a Feira do livro de Paris, realizada entre os dias 20 e 23 de março, recebeu como convidado de honra o Brasil, com o interesse de divulgar a riqueza da literatura  e a diversidade cultural  brasileira ao público francês. Nessa ocasião foi convidada uma delagação de 48 autores como Ronaldo Correia de Brito, Milton Hatoum, Domício Proença Filho. Houve também diversas mesas de debates com diferentes temas como “Qual Brasil para qual romance?”, que reuniu três autores de meios sociais desfavorecidos – Luiz Ruffato, Marcelino Freire e sobretudo Paulo Lins. Paulo Lins é um romancista excepcional que procura dar uma nova cor à literatura brasileira, trata de assuntos ligados à favela e à condição negra, tanto no Brasil de hoje (Cidade de Deus, 1997) como no mundo do anos 30, em que se desenvolveu o samba carioca (Desde que o samba é samba, 2012). A inserção da população negra não foi bem feita depois da escravidão e ainda hoje existem muitas desigualdades e preconceitos. O autor leva o leitor a refletir sobre os problemas enfrentados no cotidiano por essa população e em mesmo tempo procura valorizar a posição do negro que demorou a inserir-se na sociedade, mas que sempre lutou para se posicionar através da cultura e repelir o processo de aculturação.

Aproveitámos o “Salon du Livre” de Paris para encontrar esse representante da “literatura marginal”, e para lhe fazer algumas perguntas sobre a população negra no Brasil e sobre o romance Cidade de Deus, cuja história ficou muito famosa depois de uma adaptação cinematográfica (2001), por Fernando Meirelles.

 

  • A violência e o tráfico de droga são temáticas que aparecem de maneira permanente no romance Cidade de Deus. Então  como  é que vôce vê o Brasil em relação à violência, e como seu projeto literário permite refletir sobre esta questão?

 

P.L: “ Eu vejo a violência como uma coisa global, e por exemplo circulam por nosso país as armas americanas, francesas, alemãs,… As armas do mundo todo!  Sempre foi assim: primeiro mandaram essas mercadorias para a Africa, depois para a América central e para o Brasil. Então a violência é uma coisa global, pois cada um participa desse processo, de certa forma; e na minha opinião a violência vem muito mais de um ódio racial, forte no Brasil, ou seja ela não surge apenas por uma razão econômica. E na verdade, o ódio logo traz à tona a questão ecônomica, o ódio gera o apartheid, como em qualquer lugar do mundo. Em termos sociais, tudo foi aos trancos e barrancos, a escravidão foi uma guerra que durou 400 anos no Brasil e que, de certa forma, continua.”

 

  • A sua literatura, junto com a do Ferréz, é considerada como sendo uma literatura marginal, que aborda muitas vezes o problema do racismo na sociedade brasileira. Hoje o racismo ainda existe, como você o aponta.  Em que medida  a população negra se constrói através da cultura,e assim cria uma identidade? E de que maneira sua literatura permite inventar e exaltar essa identidade e cultura negra?

P.L: “É…  A população negra construiu uma cultura, porque se não o tivesse feito, já teria acabado a raça negra; e de fato no Brasil o negro não se inseriu na sociedade através do trabalho, como deveria ser. O negro entrou na sociedade através da cultura, da música, da religião. Os franceses fizeram no Caribe o que os portugueses não conseguiram fazer no Brasil: em Guadaloupe os negros não têm uma relação forte com a África, com umbanda, nem com samba, são cidadões franceses, sim, mas mesmo assim são descriminados. Os franceses foram cruéis e conseguiram apagar uma cultura ancestral porque tinham poucos negros. Para vôce poder dominar um outro povo é preciso acabar com o Deus dele. Ora, o negro no Brasil inseriu-se na sociedade através da força da sua cultura e da sua religião. Agora, no caso de Cidade de Deus, as pessoas tinham em mente uma imagem deformada das favelas,  apenas vendo e lendo as nóticias dos jornais; porém, meu romance procura mostrar a realidade da favela e a situação do negro no Brasil através de sentimentos, com uma fala diferente de uma perspectiva de nóticia. É nesse sentido que minha literatura é engajada e traz algo de revelador”

 

  • Uma das bases para a evolução de uma nação é a educação, mas existem disposições nas favelas para que as crianças se envolvem com a literatura?

 

P.L: “Sim, tem muitas feiras de livros, muitos contadores de histórias, e apesar do governo atual ser muito criticado,  algumas reformas fizeram com que o negro entrasse na universidade com mais facilidade, abrindo as portas para a educação nos meios sociais desfavorecidos. Então houve uma inserção educacional e cultural para os Negros e isso é um avanço. “

Entrevista feita por Raimonde Pierre

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Carnaval de Curitiba

Carnaval de Curitiba

Février 2004, texte publié dans le Caderno de Idéias.

 
Je me souviens de Jamil Snege, assis derrière une table, une cigarette entre les doigts : “Le carnaval à Curitiba? Ça ne va pas le faire. À peine un type sautille dans la rue, tout content, qu’un policier se pointe déjà pour l’arrêter !”. D’un certain point de vue, c’est une sorte de malédiction ce carnaval – ou non-carnaval – dans notre ville. On doit même s’expliquer par écrit, comme je le fais maintenant. On dirait qu’on porte la faute d’un manque d’esprit carnavalesque, la honte du faux déhanché, cette triste absence de brésilianité, et – qui sait ? – peut-être même le manque de patriotisme ! Quand tout le Brésil danse, nous voilà ici, dans ce silence de messe, à marcher dans les rues désertes, à porter un regard critique sur le premier petit rigolo qui sort faire son cirque. Tout ce chahut n’est qu’une histoire d’ivrognes !

Pas même les enfants ne s’enthousiasment : un mardi gras dans le parc Barigüi, quel soulagement ! Pour un peu on aurait l’impression de se balader à Genève au début du printemps ! Aucun masque de pirate ou de clown, pas de serpentin ni même de confettis par terre dans ces artères où les gens sérieux font leur jogging de fin de journée, en haletant, comme si rien ne se passait dans le reste du Brésil. La chose est si insipide que celui qui défend le carnaval de la ville doit le crier haut et fort, et exiger une réaction des autorités, réclamer des lois plus sévères, envoyer des pétitions aux députés ! Non vraiment, semble-t-on dire, quelque chose doit être fait contre ce crime, contre cette terrible indifférence !

Mais à vrai dire, un carnaval qui repose sur une loi ou des règlements, qui a besoin d’autant de soutiens et de plaidoyers passionnés tandis que le public est apathique ou à peine discrètement amusé, voilà qui ne tourne pas rond – ou qui tourne dans le vide, tout simplement. Il semble qu’il y a une incompatibilité radicale entre l’espace de Curitiba et l’idée de carnaval. Je dis « espace » parce qu’en cette époque de l’année, une horde immense de “Curitibanos” s’enfuit d’ici, et vient rejoindre effarée les interminables files qui la conduisent vers le littoral où, engloutie dans une masse informe qui occupe les trottoirs, les plages, les restaurants, les bars, les supermarchés et les appartements, elle passe quatre jours, parfois sans eau du robinet, en pestant contre la pluie. Ou bien les habitants s’échappent vers Florianopolis ou vers Rio, se cachent à Antonina, enfin dans un endroit quelconque où ils pourraient se divertir. Décidément, il y a quelque chose qui cloche.

Et ne ça date pas d’aujourd’hui. Dans l’édition du 15 février 1880 de “O Paranaense”, Wilson Martins décrivait les “fêtards carnavalesques” comme un défilé de « figures originales et sans grâce ». Notons la finesse critique de l’expression, ce qui est notre marque de fabrique : des “figures sans grâce”- là où le carnaval sombre, brille le langage.

Il y a quelques surprises. Quelques années auparavant, j’allai pour la première fois, en plein carnaval, au vieux bar d’Ermes : attablés, les clients buvaient tranquillement comme lors d’une soirée d’automne. Mais je distinguai vaguement un son, quelque chose qui montait depuis le sous-sol ; le sol vibrait, une sorte de martellement qui s’approchait. Je découvris les escaliers menant à la cave, et dans ce petit espace sans air, enfumé, comme dans la Chicago de la Prohibition, j’aperçus une foule clandestine qui dansait le carnaval, se coudoyant dans le noir avec serpentins et tout le tintouin, dans une chaleur infernale, et transpirant de joie. Le contraste entre ce chaudron souterrain et la paix lumineuse du dehors me fit songer à un titre possible pour la “Tribune du Parana” : “La police étouffe un carnaval de rue à Curitiba”.

Soit : nous n’avons pas de carnaval. Mais voyons-le d’une autre façon : plutôt qu’un défaut, ne serait-ce pas un capital respectable dont on pourrait mieux profiter ? Une grande ville brésilienne foncièrement opposée au carnaval ! Rien de moins que quatre ou cinq jours de silence, des grands espaces vides pour se promener – et toute une infrastructure de loisirs qui est sous-exploitée, des théâtres fermés, des cinémas vides. On peut compter par milliers – voire millions – les Brésiliens qui, comme moi, trouvent que le carnaval est une chose agaçante, et qui souvent ne s’y soumettent que parce qu’ils ne savent que faire de ces interminables et si pénibles défilés de la chaîne Globo, 800 heures à la suite du même tonneau, une vraie torture tous ces sambas à thèmes, idiots et clonés à l’infini dans l’allégresse militarisée de l’avenue.

En fait tout ce peuple en souffrance et sans options trouverait son coin de paradis à Curitiba. Tant de choses pourraient être programmées durant cette période ! Depuis la version hard – disons, un Festival international de musique sacrée ou un Concours national de chant grégorien – jusqu’à des options plus paisibles, comme des Rencontres de jazz instrumental, quelque chose du genre, ou bien une bonne Semaine du cinéma scandinave, etc. Les options ne manquent pas. Pour unique précaution, il faudra refuser catégoriquement les manifestations de MPB (musique populaire brésilienne), qui inévitablement entraînent le risque de voir apparaître un trio électrique et alors là, mes amis, là tout le monde fuit en courant, c’est la mort du carnaval de Curitiba, et on revient au point de départ.

 Texto de Cristóvão Tezza

Traduzido pelos estudantes LCE 3° ano e pelo professor Weigel

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O escritor Cristóvão Tezza em Clermont Ferrand

Por Laury Pereira, LLCE 3° ano

Dia 26 de Março, às 18h30, a Livraria de Clermont (rue des Gras) irá receber a visita do escritor Cristóvão Tezza.

Mas quem é ele? Cristóvão Tezza é considerado como um dos mais importantes autores da literatura brasileira contemporânea. Embora tenha nascido em Lages (em 1952), esse futuro romancista e professor universitário brasileiro mudou-se para Curitiba, no Paraná, com apenas oito anos de idade. Um detalhe que tem toda a sua importância sendo que essa cidade será cenário de boa parte da sua literatura. Durante a sua adolescência, Tezza passou a ter contacto com diversos tipos de arte, incluindo o teatro, a pintura e, obviamente, a literatura. Escritor já bem jovem, tinha apenas treze anos quando criou o seu primeiro livro, e não ficou por aí: com efeito, já publicou cerca de vinte romances. É autor, entre outros, de Trapo, O fantasma da infância, Aventuras provisórias, Breve espaço entre cor e sombra (Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro) e O fotógrafo (Prêmio da Academia Brasileira de Letras). A publicação do livro O filho eterno venceu, também, os mais importantes prémios literários do país. Em muitos dos seus textos, o escritor curitibano deixa transparecer as suas experiências pessoais, sempre com um ponto de vista narrativo original, e com os recursos da ficção. Com efeito, as suas inúmeras dificuldades e saborosas pequenas vitórias de criar um filho com síndrome de Down, a sua vida em comunidades alternativas, os seus exílios voluntários em ilhas do literal do Paraná, e as suas viagens marítimas solitárias e sem rumo aparecem refletidos nas suas narrativas.

Portanto, nessa quinta-feira 26 de Março, será a ocasião de descobrir mais um pouco esse famoso escritor, que aproveitará desse encontro para interagir com as pessoas presentes, após uma leitura de textos. Esse evento, que contribui para a divulgação e valorização das obras de literatura brasileira, é um momento que você não poderá faltar!

Aqui vai um entrevista do escritor: http://www.youtube.com/watch?v=Oi8O8V2hLKY

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Gastronomia da Guiné Bissau

Texto de Mélanie Lima, LLCE1 português

A Guiné-Bissau, colónia portuguesa desde o século XV até à sua independência em 1974, tem uma tradição gastronómica muito rica e diversificada. Um dos ingredientes principais dos pratos guineenses é o arroz.

As águas muito ricas do Atlântico permitem o aprovisionamento regular de peixe, sobretudo no litoral do país, mas a carne também está muito presente nos pratos guineenses. Os Pepels (ou Papel) que são um grupo étnico presente na Guiné-Bissau e em Casamança moram em zonas rurais e são tradicionalmente exímios cultivadores agrícolas. Os terrenos agrícolas por eles cultivados são os mais adequados para o cultivo do arroz. Para termos uma ideia, a agricultura representa 56% da economia guineense, por isso, o cultivo do arroz é tão importante.

De entre as carnes mais tradicionais consumidas na Guiné-Bissau, destacam-se: o macaco (sobretudo o macaco verde, que é um dos pratos tradicionais do país), o pangolim ou a tartaruga.

A este do país, nas zonas da cultura do milho e do sorgo, são naturalmente estes cereais que muitas vezes substituem o lugar do arroz nas refeições das famílias.

O molho de amendoim, rico e popular com as donas de casa, o óleo de palma encontrada no país, muito barato, limão, quiabo ou diagatous (tomates amargos) adornam muitos pratos.

A gastronomia deste país é também tão variada quanto equilibrada. Os frutos, os legumes, as ervas e acompanhamentos são numerosos e os cozinheiros sabem como adaptar sua culinária com ingredientes sazonais.

Para as festas religiosas e/ou tradicionais para as famílias, os ingredientes podem ser mais raros e caros. Alguns exemplos desses pratos:

– A moqueca de peixe, feita com 1 peixe de aproximativamente 1 kg, 2 limões, 1 colher de sopa de concentrado de tomate, uma cebola, uma pimenta, 1 decilitro de leite de coco e sal.

Moqueca de peixe

– Cania : É uma sobremesa muito apreciada na Guiné-Bissau. Mistura de arroz com amendoim torrado e açúcar.

– Doce de papaia ou de coco.

– Caldo : Prato de arroz branco de peixe.

– Poportada : Prato preparado em base de farinha de arroz. O ingrediente principal é a carne de porco salgado.

– Le Siga : Feito com gambas frescas.

Abacate recheado com atum : Uma lata de Atum, 2 abacates maduros mas rijos ; 3 colheres de sopa de molho de tomates picantes ; 2 limões ; 2 DL de Matas ; coco ralado ; sal ; pimenta.

Camarões a Guineense

Frango de churrasco

Frango com bagique

Lagosta assada

Mancarra com citi.

Pitche-patche de ostras

Os pratos são tantos e tão deliciosos que é difícil de imaginar, mas espero que esta curta viagem possa abrir o apetite para a descoberta da Guiné-Bissau e das suas tradições.

 

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O carnaval na Guiné

por Justine Guillet, 1º ano LLCE português

O carnaval é uma tradição muito comum nos países lusófonos. Toda a gente conhece o famoso carnaval do Rio de Janeiro, mas nos países africanos que falam português há também outros carnavais muito populares como o de Bissau, na Guiné.

Mas onde é que fica a Guiné e o que é este país ? A Guiné é um pequeno país no corno de África que tem uma fronteira com o Senegal e a Guiné Conacri e que fica perto do Oceano Atlântico. É uma antiga colónia portuguesa que se tornou  independente em Setembro de 1974. Há uma grande diversidade cultural num “pequeno país gigantesco”*, e que embora seja mínimo em termos de geografia, conta com 23 etnias e pelo menos 9 idiomas.

A sua capital é Bissau e é a cidade na qual vamos concentrar-nos. De fato, Bissau é a maior cidade do país. A cidade é conhecida pelo seu Carnaval anual que tem lugar cada ano em Fevereiro. É um dos maiores carnavais da África. Todos os anos, Bissau recebe uma vaga de turistas que chegam de todas as regiões do país, mas também de outros países e que vêm para vê-lo. De fato é uma manifestação popular grandiosa e muito festiva. No entanto, o carnaval é uma tradição originalmente europeia, surge na Grécia antiga nos anos 600 a 520 a.C. onde realizavam cultos em agradecimento aos deuses pela fertilidade do solo e pela produção. Passando mais tarde a ser uma comemoração adoptada pela Igreja Católica em 590 d.C sendo um período marcado pelo “adeus à carne” ou do latim “carne vale” dando assim origem à palavra ‘carnaval’. Mas neste país há uma mistura das identidades social, cultural e artística singular. Esta celebração dura 3 semanas e nela comemora-se a união entre todas as etnias do país e, ao mesmo tempo, as diferenças culturais entre elas.

Por isso cada etnia do país prepara-se para esta manifestação. Eles constroem um carro alegórico com muitas cores em ligação com um tema e até à festa esses carros ficam escondidos e a preparação ocorre em segredo, para evitar rivalidades e plágios.

As crianças também têm o seu lugar nesta festa, todos os anos fazem máscaras com lama que pintam para mostrar a sua criatividade e para participarem num concurso durante o carnaval. Algumas máscaras são assustadoras, outras são coloridas, mas estas obras gigantescas são verdadeiras obras de arte.

Ademais as etnias querem apresentar e representar as suas tradições, danças, culturas, costumes, vestuário, hábitos alimentares, … Durante alguns dias, Bissau mora aos ritmos dos tambores Bijagós, dos bombolongs Ajamat e das canções Balantas durante toda a noite.

Por isso é o melhor momento para ir de férias à Guiné e descobrir toda a cultura do país e de cada etnia que faz parte da população guineense.

*(Andrzej Kowalski, http://www.cenalusofona.pt/cenaberta_old/carnaval.htm)

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A lenda da Kianda, mitologia angolana

 por Noémie Pereira Lopes, LLCE1 português

Angola reúne muitos mitos e lendas devido a uma grande diversidade de culturas : o país junta pessoas com origens, línguas e costumes diferentes, o que faz a sua riqueza.

Uma personagem mítica muito popular em Angola é a Kianda.

 Quem é a Kianda ?

No dicionário quimbundo/português, a palavra quimbunda “kianda” significa um monstro fabuloso da mitologia, deus das águas que se pode traduzir pela palavra “sereia” no imaginário português. Na realidade a Kianda é uma personagem muito mais complicada que pode tomar muitas aparências e dissolver-se no mar.

É um ser sobrenatural que preside o império dos mares e dos rios, das montanhas e dos bosques.

Mais geralmente, a Kianda é uma divindade dotada de poderes sobrenaturais que pode fazer tanto o bem como o mal. Ela inspira o medo e o perigo mas também suscita o amor.

Cada meio aquático, cada curso de água, cada lagoa tem uma Kianda que toma o nome do rio ou do lago onde ela fica.

Mas existe A Kianda, que é a sereia das sereias, a rainha de todas elas. É a mais poderosa, a mais amada, venerada e temida de todas. O mito é acerca dela.

Qual é a história da Kianda ?

 Conta-se que a Kianda vivia perto da Praia do Bispo, em Luanda. Um dia, viu um homem pobre e triste que andava sozinho à beira-mar. Num ato de bondade ela ofereceu-lhe o acesso a um tesouro escondido que só ela conhecia. O homem enriqueceu logo e ao mesmo tempo que ele enriquecia tornou-se egoísta e ganancioso, só usava o dinheiro para o seu próprio interesse. A Kianda, que ia observando o homem, ficou dececionada com o que viu e decidiu dar-lhe uma lição, fazendo desaparecer o tesouro e deixando o pescador sem nada dum dia para o outro.

Por vezes, também dizem que a Kianda enfeitiçava o homem, retendo-o prisoneiro no fundo do mar para sempre.

Algumas representações da Kianda.

Várias telas representam a Kianda com uma forma de sereia.

Por exemplo “A felicidade da Kianda” de um pintor amador angolano, Admario Costa Lima. Aqui a Kianda está gravida e é por isso que ela está feliz.

Outro exemplo é uma tela que se titula “Oferendas para a Kianda” de George Gumbe. O pintor representa-se pintado na tela no meio de animais terrestres ou marítimos, o que pode significar que ele também é uma oferenda para a divindade.

Existe também uma escultura no porto de Lobito no sul de Angola que representa uma sereia e que pode fazer pensar na Kianda.

Qual é a importância da Kianda em Angola?

O povo angolano respeita imensamente a Kianda e cada ano é celebrado um ritual de adoração para ela. Em Luanda, a festa decorre no início de novembro. As pessoas trazem comida para fazer um banquete e cantam e dançam ao mesmo tempo. Depois há uma procissão no mar e a comida é deitada para o mar enquanto se toca o batuque para satisfazer a Kianda.

Mas a lenda da Kianda não vive só na oralidade. Pepetela, um escritor angolano que ganhou o prémio Camões em 1997, escreveu e publicou em 1995 um romance chamado “O desejo de Kianda” que trata do assunto.

A história ocorre em Kinaxixi, perto de Luanda. Os prédios do bairro estão todos a cair uns após os outros e ninguém percebe porquê, pois ninguém fica ferido na queda dos edifícios que caem lentamente para o chão. Os cientistas declaram que a água foi toda retirada do cimento que segurava o prédio, provocando a queda, mas ninguém sabe como nem porquê.

A resposta a esta pergunta é dada por Cassandra, uma rapariga que consegue ouvir uma voz que vem das águas de uma poça perto dos prédios, e ao longo do texto descobrimos que é a voz da Kianda, e que é ela a responsável pela destruição dos edifícios. A razão é que o bairro foi construído em cima de uma lagoa onde ela morava antigamente e ela está à procura de uma maneira de recuperar o seu bem, por isso ela começou a cantar e os prédios foram caindo um a um.

Esse era o desejo de Kianda.

Para concluir, podemos dizer que Angola é um país cheio de mitos e histórias, curiosamente o próprio país se tornou um mito, pois agora muitos portugueses acreditam que se vão para Angola poderão enriquecer mais facilmente do que no próprio país.

Quem sabe se não encontrarão um dia o tesouro da Kianda ?

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A Crónica da Pata-choca

 “O que não te mata, torna-te mais forte … Ou

 Esta é a história de uma menina muito bela e gentil que vivia num reino longínquo chamado Clermont-Ferrand. A história que lhes vou contar é uma história sobre por que me tornei uma pata-choca, até hoje:

Era uma vez…Uma segunda feira normal, dia 1 de setembro.

O dia até tinha começado bem, porque pela primeira vez não me esqueci de acordar e nem sequer fiz com que o meu telemóvel voasse pelo quarto por ter começado a tocar às 8h em vez de tocar às 8:05. No trabalho, depois de ter corrido de um lado para o outro durante 9 horas, levando calcinhas e sutiãs com mais Push-Up que sutiãs às meninas que têm como ideal Nabilla ou Kim Kardashian, tinha a sensação de dever cumprido.

Bem, no final do dia, cansada, dirijo-me para minha pseudo Harley Davison que faz mais ruído que um secador de cabelo, tranquila em direção ao meu Home Sweet Home. Até consigo fazer os primeiros 100 metros mais rápido que o Tramway e, de repente, o carro do Nody vem atravessar-se na minha frente, e corta minha passagem !!!!

Nesse momento perguntei a mim mesma, o que vou fazer agora? Que vou dizer se chego atrasada? Vamos ter que ficar muito tempo depois a fazer os papéis do seguro, agora! Ele tem a culpa! Reage menina! reage!!! Então, viro o guiador qual cena digna do Fast & Furius – não sei se estão a ver – e salto sentindo-me mais ágil que o Homem Aranha…

Nesse instante, quando o tempo parece que se põe em pausa e a minha vida desfila diante dos meus olhos, comecei a ver a minha vida a andar para trás!! Eu já via a cara da minha tia tão zangada como o diabo e que me ia dar a tareia da minha vida se o scooter tivesse um só arranhão. Ainda tentei pegar meu Scooter como na cena onde Néo  esquiva as balas no Matrix.

Depois, nada. Silêncio. Vazio. Após esta façanha encontro-me deitada como uma boneca no chão e a música da Disney começa a tocar… Assim com o vento nos cabelos vejo chegar dois cavaleiros muito engraçados para resgatar a princesinha no chão, e penso: ufff ainda há cavalheiros no mundo… mas afinal estavam mais preocupados em levantar o scooter do que em socorrer-me e eu tive que levantar meu corpo esparramado e magoado no chão sozinha e voltar para a casa…

No dia seguinte diagnóstico: o dedinho pequeno perdeu um pedaço que foi para outro lado, e o metatarso partido como uma espiral. Para piorar, deram-me uma bota de Cyborg e aí sim começaram as verdadeiras chatices…

De manhã, em qualquer manhã normal, o tempo já parece passar muito de presa, mas ter um pé partido não facilita a tarefa de arrastar seu corpo para fora da cama. Para poder levantar-me tenho que furar cada cinto da bota para andar uns 10 metros que separam o meu quarto da casa de banho, no chuveiro tenho que aguentar-se como numa corda bamba sobre um pé só, para me lavar, como se estivéssemos em um espetáculo de circo. Sem falar do caminho sem fim do Tramway para a faculdade que, tenho a ligeira impressão, vai aumentando e ficando mais longe a cada dia que passa.

Mas a cereja em cima do bolo vem no momento de trocar de sala para trocar de aula: em vez de ir pelas escadas, tenho que fazer a volta completa para atingir o elevador, e chego à aula morta de cansaço e tudo  é assim… uma bagunça, uma complicação se quero fazer alguma coisa mínima, toda a banda de assistentes que preciso para fazer as coisas mais insignificantes do mundo.

Hoje, 2 meses depois do acidente, ainda não posso trabalhar, não posso usar os sapatos de sempre, e isso me faz refletir que um acidente tão pequeno te faz voltar para a infância onde éramos dependentes de outra pessoa, e te faz perceber que mesmo com uma deficiência tão mínima e temporal, para a gente com uma deficiência permanente é muito complicado e é uma proeza quotidiana sair de casa para o trabalho e mesmo ter uma vida normal!

Mas a pequena história que me vai ficar deste tempo de crise é que pela primeira vez na vida já estive – de forma legal – no lugar de estacionamento destinado às pessoas com deficiência. E isso fez-me pensar…

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